Almanaque Boca do Inferno

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A NOVA ORTOGRAFIA E O GENTÍLICO CAMPO-MAIORENSE

                      

Nestes últimos dias, li o Vocabulário Ortográfico da Lingua Portuguesa , o VOLP-5° edição, ano 2009, Global Editora, e deparei-me com algumas inovações que foram celebradas pelos oito países lusófonos e que ora compõem o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, e que fora criado com o objetivo primordial de “delimitar as diferenças entre os falantes da língua e criar uma unidade linguística expressiva para ampliar o prestígio no âmbito internacional”.

 

 Pois bem, dentre essas inovações, destaco o acréscimo de mais três letras (K, W e Y) no alfabeto, a abolição do trema, a acentuação gráfica e outras alterações no nosso léxico.

 A propósito, há tempos, eu li que aquele sinalzinho gráfico que se atravessa horizontalmente entre dois ou mais vocábulos, dizendo-se que vai uni-los, na verdade ele não hifeniza, mas, volta e meia, ele literalmente inferniza a vida das pessoas.

Senão vejamos, com o advento dessas novas regras, eis que o danado do hífen está mais fortemente atazanando a nossa língua, pondo-nos dúvidas, ambiguidades; por exemplo, a palavra cor-de-rosa (tem hifens), mas, em cor de carne e cor de burro quando foge, não recebem hifens; a palavra coerdeiro aparece sem hífen e sem o h; outra, quem for acusado ou condenado pela participação com outra pessoa num mesmo delito será “corréu” e não mais “co-réu”.

 E para se tornar mais babélica a nossa “Última Flor do Lácio”, como chamou a língua portuguesa, o sonetista parnasiano Olavo Bilac, ainda nos vêm, as palavras micro-ondas com hífen e ideia e assembleia, sem acento.

Ainda a respeito do hífen, compulsei o compacto VOLP que ora se nos apresenta mais volumoso, posto que, no bojo das suas 878 páginas, açambarca cerca de 340.737 vocábulos e mais de 1.500 estrangeirismos, e eis que, no meio desse cipoal de verbetes,  pincei o nosso gentílico, isto é, aquele adjetivo que designa como se deve chamar o habitante de uma cidade, estado ou nação; e logo ali, na parte superior da terceira coluna da página 151, o VOLP taxativamente define assim: campo-maiorense, adj., s. 2 g.; plural campo-maiorenses, portanto, o gentilício de Campo Maior é campo-maiorense (assim mesmo com hífen); assim, também corrobora o dicionário do Aurélio, editora Nova Fronteira, 1999; mas, por outro lado, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 1ª edição, de 2001,   nos  ensina que o gentílico  de  Campo Maior, Alentejo, Portugal, é campomaiorense (sic), sem o hífen.

É lamentável que, modernamente a nossa língua esteja sendo ultrajada pela invasão de estrangeirismos, internês (peço vênia, para citar algumas palavras captadas em blogs de alguns adolescentes, v. g., aki=aqui, axim=assim, ateh=até, e assim segue a “nova ortografia virtual”), e outras intromissões, mas vamos torcer para que as autoridades do nosso País protejam as nossas tradições linguísticas, malgrado sabermos que qualquer língua – por não ser estática, inerte - inevitavelmente sofre modificações através do tempo e do processo migratório, ainda mais hodiernamente com os avanços tecnológicos, e a imprescindível internet que transformou o mundo numa simples aldeia global.  

A propósito, em se falando de preservação dos valores do idioma, os franceses lutam aguerridamente para que sua língua seja preservada, e não admitem que outros idiomas invadam a sua cultura e seus costumes. Deixem um estrangeiro qualquer chegar a uma lanchonete, por exemplo, e pedir um sanduba em inglês, espanhol, italiano...pra ver se é atendido. O gringo vai morrer de fome se não pedir sua guloseima em francês. Lá na França é assim, a língua é preservada, é blindada; e vejam que a França - sem ser xenófoba – é o país mais visitado do mundo, com mais de 70 milhões de visitantes por ano.

Sem a mínima pretensão de ser um crítico literário, aliás, até sofro à mingua desse mister, mas somente à guisa de reflexão,  cabe-me enunciar um conciso comentário: enquanto o poeta português Fernando Pessoa diz: “Minha pátria é a língua portuguesa”, me vem o Renato Russo com “Eu canto em português errado/acho que o imperfeito não participa do passado...”  e em outro ângulo, emerge o cantor de Podres Poderes e santo-amarense Caetano Veloso “...quero me dedicar/a criar confusão de prosódias/e uma profusão de paródias/que encurtem dores/e furtem cores como camaleões.”  Pergunto, no meu ínfimo conhecimento, será se esses versos dos dois compositores brasileiros, são a presença hiperbólica da licenciosidade cultural, que ousa enveredar na bendita liberdade poética?

E para descolorir mais ainda a nossa despetalada ”Flor do Lácio”, me vem um inescrupuloso internauta, que me eximo de citar o nome, e tasca essa risível pérola: “Português mal dizido ninguém corrége...”.

 Esquecem-se alguns escrevinhadores que a nossa língua, essa flor de lótus, que nascera nos jardins da Península Ibérica, possui riqueza, elegância, beleza, pureza e perfeição, e é justamente por isso que, ao longo do tempo, perfumou os poemas de Camões, celebrizou os Sermões do Pe. Vieira e deu charme aos romances de Eça e do nosso Machado de Assis, apenas para citar alguns dos nossos clássicos.

Depois de tudo isso, em tese, convenhamos, efetivamente o nosso vernáculo é muito complexo, como bem disse o Barão de Itararé (1895-1971): ”O português é uma língua muito difícil. Tanto que calça é uma coisa que se bota, e bota é uma coisa que se calça”.

Tenho dito.

São Luís, MA, 14 de abril de 2014

EVALDO LOPES, poeta campo-maiorense

Membro da Academia de Letras do Território dos Carnaubais – ALTEC, Cadeira n. 07 

 


Postado em: 05:55 PM, 16/4/2014

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