Almanaque Boca do Inferno

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UM DIA ESCURO E SEM MÃE

 Pensando bem, a vida é sempre permeada por dias claros e noites escuras. Eu, que no próximo mês completarei 60 primaveras, sempre tive dias claros na minha vida, evidentemente que, aqui e acolá, surgem no meu cotidiano algumas nuvenzinhas escuras e alguns trovões e relâmpagos, mas tudo assim muito rápido, não demora e logo tudo fica um céu de brigadeiro. Mas tudo tem a primeira vez, e foi justamente no dia 17 do mês fluente, que eu tive um dia aziago e muito escuro, pois fui acordado por volta das 06h20min, com a triste notícia de que a minha mãe havia falecido em Teresina, Piauí. E eu, atônito, macambúzio e sem graça pelo impacto da má notícia, confidenciei à minha esposa: Ontem, eu era um homem rico, mas hoje estou pobre, porque uma das pessoas mais importantes da minha vida está morta. Por que, meu Deus? O silêncio respondeu-me. Ora. Mas logo tu, minha mãe querida, que me deste tanto carinho e amor, que me ensinaste tudo de bom da vida, como os meus primeiros passos, me ensinaste a balbuciar as primeiras palavras, a rezar, a ter fé em Deus, a ser sensato diante das dificuldades, a respeitar as pessoas e as leis e que sempre me mostrava os bons exemplos, os bons costumes, e os bons caminhos para eu trilhar na trajetória da vida. E de repente, todo esse tesouro, essa riqueza se vai, se acaba. Tudo isso é doloroso e muito triste. É, mas somente Deus sabe explicar os mistérios que envolvem a vida e a morte, por isso temos que aceitar essas coisas com certo estoicismo, embora a gente saiba que tudo tem o seu prazo de validade aqui na terra, como bem nos ensina o Livro de Eclesiastes, 3-2, que diz: “Há tempo de nascer, e tempo de morrer. Há tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou”. Eu, como filho da Dona Dita Lopes, me sinto orgulhoso de ter tido essa mãe, essa pessoa dotada de muitas virtudes, tais como: a caridade, a humildade, a solidariedade humana. Lembro-me que, sempre pobre fomos, mas nenhum pedinte cruzou a soleira da nossa porta sem ser agraciado, pelo menos com um punhado de alimento, algumas moedas ou uma refeição. O portãozinho e a porta da nossa modesta casa sempre estiveram abertos para receber qualquer pessoa, quer fosse para palestrar, tomar uma xícara de café ou até ir ao fundo do quintal para apanhar carambolas. Numa das vezes que estive lá em casa, em férias, observei algumas pessoas chegando e foram até a cozinha, sentaram-se diante da nossa mesa vasta, papearam, tomaram café com bolo e depois saíram se despedindo. Foi aí que perguntei: mãe, quem são essas pessoas? Aquela morena, baixinha é filha de fulano, aqueloutro é neto de sicrano, e aquelas outras duas pessoas, eu não sei, apareceram aqui pelo bairro, respondeu-me ela com uma simplicidade franciscana.  Era assim mesmo, sempre minha mãe teve um enorme prazer em receber as pessoas, de ser receptiva, dentro de um padrão simples, lógico que, sem sobrosso e sem discriminação. Morou por mais de 50 anos na mesma casa no bairro da Estação em Campo Maior, Piauí, e não teve a capacidade de conceber sequer um inimigo. O seu boníssimo coração não teve espaço para abrigar a discórdia, a mentira, a inveja, o ressentimento. Era católica fervorosa, devota da Santíssima Virgem Maria, recebeu na pia batismal da Igreja de Nossa Senhora da Saúde em Frecheirinha/CE, sua terra natal, o nome de Expedita, como esse nome se encaixou bem na sua personalidade, pois realmente, era uma pessoa ativa e diligente em tudo que fazia. Descendia pelo lado materno, da família dos Mourão de Ipueiras/CE e pelo lado paterno, provinha da geração dos Martins, da Serra da Ibiapaba. Casou-se bem nova com Francisco Moreira Lopes, o Mestre Chico Lopes (in memoriam), também cearense de Sobral/CE, e em meados da década de 40 do século passado, subiram a Serra Grande e aportaram na Terra dos Carnaubais, e ali plantaram sementes e fincaram raízes; teve nove filhos, netos e bisnetos, viveu intensamente e feliz por longas nove décadas. Sabe mãe, deixa eu te confidenciar algumas coisas: naquela tarde violácea do fatídico dia em que te acompanhei ao Campo-Santo, vi, ainda com os olhos lacrimejantes quando tu desceste à campa e o teu pó, de uma forma natural e espontânea, misturou-se com o pó de papai, num processo simbiótico, cuja essência traduziu-se como um pacto de eterna aliança. Mãe, agora que estais aí no Oriente Eterno, pedes a Deus que te concedas a permissão para o reencontro com papai, e aí vocês sairão a passear de mãos dadas pelos bosques perfumados do Paraíso; mãe, aqui fica este teu pobre filho, que vela por ti, pela tua alma e augura que Deus, nosso Pai Todo Poderoso, possa te dar muita paz e que tu possas viver eternamente numa dessas “muitas moradas”, sob os cânticos dos anjos celestiais. Encerro minha modesta crônica evocando aquela Oração de São Francisco, que diz: “... é morrendo que se vive para a vida eterna.” E ainda, para lembrar as homilias domingueiras na Igreja de Santo Antonio, em Campo Maior, Piauí, na década de 60 do século pretérito, quando o Monsenhor Mateus Cortêz Rufino, nos dizia num bom latim: “Dominus vobiscum”, e a minha mãe e demais ovelhas respondiam: “Et cum spiritu

tuo”. E eu, ora vos direis: “Amen, amen”.

Tenho dito.

Caxias, MA, 19 de junho de 2014 – em trânsito

 

EVALDO LOPES, poeta campo-maiorense

Membro da Academia de Letras do Território dos Carnaubais (ALTEC), cadeira n. 7

Contatos: evaldoellopes@gmail.com


Postado em: 10:37 PM, 5/7/2014

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