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Esquina Urbana

17/5/2012 - A CIDADE INDUSTRIAL DE TONY GARNIER

               O conjunto de três inserções que se seguem reproduz, com algumas poucas correções e ajustes, texto publicado anteriormente na Revista Arquitetura do IAB-GB (Rio de Janeiro, abril/68,pags.13-19.

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               As criações do gênio humano sempre refletem umas menos outros mais, em função do menor ou maior acuidade do seu criador, os contradições e condições da sociedade que os produziu. Algumas, mesmo, sem deixar, todavia de refletir estas contradições, se colocam prospectivamente adiante do seu tempo, delineando e antecipando condições que o presente não pode ainda estabelecer. Foi o caso, freqüente no séc. XIX, das inúmeras utopias, que tanto influenciaram e marcaram a gênese do urbanismo. É o caso também, da obra do arquiteto francês Tony Garnier, Ainda que a menor ou maior compreensão de uma obra sempre pressuponha certo grau de análise do tempo, do meio em que foi elaborada, nos restringiremos aqui apenas o esboçar alguns dados, os mais importantes e disponíveis em nossa limitada bibliografia.

1. Alguns dados

               Tony Garnir nasceu filho de pais operários, na segunda metade do séc. XIX em Lyon, uma das capitais industriais da França de então e de ainda hoje. Cursou, a custas de grandes dificuldades, a Escola de Belas Artes de Paris. Foi aluno de Paul Blondel e um fervoroso simpatizante das idéias do socialismo numa época em que este, na França, ainda não tinha se fragmentado nas múltiplas facções da atualidade e em que mais ainda do que hoje, certas distinções, esclarecimentos não tinham ainda se desenvolvido suficientemente para poder desfazer alguns dos equívocos e dramáticos problemas que marcam o mundo em que vivemos. O nascimento de Garnier em Lyon explica provavelmente muito das características da sua obra, Lyon era uma aglomeração urbana que tinha um passado e uma tradição eminentemente industrial:

               Desde o séc. XVIII nesta cidade tinham começado a se instalar várias das primeiras grandes indústrias têxteis da França. Este meio Urbanizado, altamente industrializado, marcado pelas árduas e duras lutas de um operariado em formação e paralelamente uma formação excessivamente acadêmica, característica da Escola de Belas Artes de Paris, foram ao que tudo indica os dois fatos fundamentais, determinantes em grande medida do rumo que tomou sua obra. De um lado uma forte nostalgia e amor pelas formas do passado, cuja influência é fàcilmente perceptível em todas as suas realizações. Por outro lado uma sedução irresistível que o levava a enfrentar, analisar e propor soluções indiscutivelmente revolucionárias para a época. Respostas para problemas relacionados com a caótica realidade das cidades, profundamente abaladas em suas mais básicas estruturas pelo surto industrial do séc. XIX. Passado e futuro se mesclaram assim curiosamente nesta obra.

               É inegável, entretanto, que Tony Garnier, mais do que qualquer dos seus contemporâneos,  se saiu brilhantemente de sua empreitada em busca de uma solução para os graves problemas da cidade industrial. Basta para tanto, por exemplo, compararmos sua obra com a de um Howard. Sem nenhum exagero  é a ele que devemos atribuir a criação de quase todos os princípios básicos de um urbanismo que apenas na decada de sessenta começou a ser reavaliado. A sua célebre concepção de uma cidade industrial, como nos diz Bruno Zevi (1), examinada hoje parece impossível de ter sido projetada na época em que de fato o foi, o inicio do século XX.

               Ela é uma das mais espetaculares antevisões da cidade racionalizada e decididamente planejada da era industrial, tanto pelo conteúdo programático de suas proposições como formalmente pelo impacto que ainda hoje nos causa o seu inigualável desenho, expresso numa formidável série de pranchas com perspectivas, elevações e plantas. Tudo é esmiuçado até ao mínimo detalhe.

               A própria arquitetura da cidade é arrojada e inovadora; diferentes tipos de edifícios foram por ele padronizados: casas com pátios, pavilhões escolares térreos ou de dois pavimentos; certas soluções morfológicas destes projetos são extraordinàriamente avançadas em relação à época em que foram concebidas. As construções são quase que todas em vidro e concreto armado, com jardins elevados, pilotis, lajes cogumelos, etc. É interessante ressaltarmos que o conhecido projeto em concreto armado de Auguste Perret para a Rua Franklin 14-bis data de 1903, sendo, portanto, contemporânea das especulações de Garnier; a primeira laje cogumelo construída na Europa foi executada por Maillart em 1910 em Zurique; os jardins elevados (terraços jardins) e os pilotis foram, de certo modo, introduzidos por Garnier. Só muito posteriormente é que eles foram magistralmente desenvolvidos por Le Corbusier, que os levou à categoria de princípios básicos da arquitetura modernista.

               Garnier foi distinguido com o Grande Prêmio de Roma em 1899, obtendo deste modo a grande oportunidade de empregar todo o seu tempo na elaboração do grande sonho de sua vida, o projeto revolucionário de uma cidade realmente moderna. A idéia geral desta estava elaborada e foi dada a conhecer em 1901. O conjunto de pranchas que explicitavam o seu desenvolvimento, foi aprontado depois de árduos trabalhos em 1904, ano em que foram expostos na Academia de Belas Artes de Paris, ocasionando choques e escândalos no meio docente e profissional da cidade.

               A obra  é composta de duas partes distintas, uma introdução teórica e uma série de 164 pranchas, somente· pôde ser editada em 1917, em forma de um livro que tomou o nome de "Études pour Ia construction des villes", que exerceu na época considerável influência, passando, segundo Gideon (2), pelas mãos de todos os que procuravam novas soluções.

               No ano seguinte ao da apresentação do plano da cidade industrial, Tony Garnier foi convidado por Edouard Herriot, prefeito socialista de Lyon, para exercer o cargo de architecte en chef, da cidade, que passou assim, a ser para ele na prática a cidade industrial dos seus sonhos. Lyon teve por outro lado e deste modo a oportunidade de ser a única cidade do mundo que antes mesmo da primeira grande guerra mundial contou com um plano regulador completo e cuja maioria dos edifícios públicos foi projetada por Tony Garnier. Garnier edificou em Lyon o Matadouro da Mouche, o edifício do Mercado, o Estádio Olímpico, os 22 pavilhões do Hospital de Grange Blenche e o célebre conjunto de habitações Estado Unidos, que dispersa os seus edifícios nas áreas verdes, eliminando, coerentemente com as teorias da cidade industrial, os pátios internos de iluminação e aeração.

               As construções de Tony Garnier em sua utilização dos novos materiais, como o concreto armado, foram menos audaciosas que seus projetos. No fundo a hora mais fecunda de Tony Garnier foi a do momento em que se exercitava em seus surpreendentes desenhos e previsões. Para infelicidade nossa e da História da Arquitetura, o impulso inicial, altamente criador da cidade industrial, só se manteve nas suas primeiras obras.

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12/1/2013 - uRDadPyH

Comentário por Farid
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