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Esquina Urbana

12/6/2012 - URBANISMO E TRANSPORTE 2

 

              

               Não estou entre os que subestimam as dificuldades e obstáculos para a superação da falta de dialogo entre urbanistas e especialistas em transporte público.  Isto não me leva, todavia, a considerar o trabalhar conjunto destas áreas como uma missão impossível.  A integração destas atividades passa por uma série de dificeis desafios. Um dos mais importantes seria, sem dúvida, o abandono da excessiva dependência do automóvel.  Penso que a superação desta cultura levará à uma reconquista do perdido prazer de se andar a pé ou de bicicleta. Levará também à conquista do direito a um transporte público. Um direito que democratize as oportunidades de circulação para toda a população da cidade.

               Para prosseguir com meus divagações em relação às questões do urbanismo e do transporte público volto ao tema de Brasília. Uma cidade que, apesar de declarada  patrimônio mundial da humanidade, enfrenta dificuldades e problemas crescentes. Volto ao repisado tema da revitalização da avenida W3.  O intuito não é apresentar nenhuma proposta detalhada.  Aliás já escrevi,  aqui mesmo no blog, que sua revitalização não deve ser iniciada a partir de propostas físicas. Estas obviamente, entretanto, não podem ser descartadas.  

               Tratarei apenas de jogar ao vento algumas breves considerações. A partir incluisive de uma mea culpa considero que os problemas da via tem sido tratados com muita timidez.  Uma grande falta de ousadia se manifesta sempre que os problemas da via são debatidos.  Este excessivo recato se origina por um lado no fato do tombamento da cidade. Como propor alterações para um espaço que integra um importante manifestação da cultura brasileira? Há que se pensar em contraponto que a cidade não pode ser percebida a partir de uma obsoleta concepção de um museu de arquitetura e urbanismo cristalizado. A norma de tombamento da cidade é suficientemente flexível para permitir ajustes e alterações que permitam superar problemas que atualmente afligem sua população.

               Por outro lado a excessiva prudência também encontra sua origem em posturas equivocadas. Pela priorização, como um exempo entre outros, de metodologias de participação pública. Manifestações que partem do pressuposto de que propostas legitimas só podem ser formuladas pelas próprias comunidades afetadas. Um dos riscos destas posturas é o de que temas importantes para o conjunto da cidade, sejam examinados apenas em função de interesses meramente paroquiais deste ou aquele bairro da cidade.

               Atenção! Não estou aqui a defender nenhum processo anti-democrático de gestão pública. Muito pelo contrário. Propostas urbanísticas devem necessariamente levar em consideração manifestações comunitárias.  Defendo também que intervenções urbanísticas significativas sejam sempre submetidas ao escrutínio público.  Nada disto impede que servidores públicos, técnicos, profissionais liberais ou moradores de outras partes da cidade possam propor soluções para um problema existente em uma determinada área da cidade.   Dar sua contribuição para problemas da cidade em que vivem.

               Uma mudança cultural radical, no futuro, poderá, quem sabe, levar à elaboração de propostas em que a prioridade não será considerar uma via como a W3 apenas como um espaço para a circulação de automóveis. Por que ela pode não ser um espaço público, servido por um modo de transporte público moderno, confortável e eficiente? Um espaço servido por ciclovias e dotado de  calçadas bem mais largas do que as atuais. Calçadas, por exemplo, com quinze ou mais metros?  Um espaço público em que os automóveis, em decorrência deste fato, só contariam com uma, ou no máximo, duas faixas de circulação em cada sentido da via.   

               Por que não pensar a W3 como uma via onde possam estar localizados conjuntos multiplex e shoppings de médio porte?  Por que centros comerciais só podem ser concebidos no atual e paranóico modelo de grandes elefantes brancos. Edifícios com paredes externas cegas e isolados da paisagem circundante?  Monstrengos que não interagem com o mundo exterior. Um modelo que, além de desvitalizar os espaços públicos  e áreas comerciais locais e centrais das cidades, acentua a nossa dependência do automóvel. Um modelo que isola, discrimina e diferencia os diferentes grupos sociais.

              Por que o planejamento urbano da cidade não pode ter como objetivo uma estruturação e distribuição espacial mais adequada das habitações, produções e serviços da cidade? Por que não podemos viver em uma cidade constituida, basicamente, por áreas de vizinhança?  Áreas dotadas de pequenos centros servidas por transporte público de qualidade e por um  conjunto mínimo de atividades (lojas, serviços, escolas, postos de saúde etc.). Centros que necessariamente seriam acessíveis a pé ou de bicicleta. Em uma cidade como esta uma parcela expressiva dos deslocamentos, que hoje forçosamente dependem do uso do carro, perderia sua razão de ser. Uma cidade que incorporaria valores da aldeia, sem se prender às suas limitações. Uma cidade em que poder-se-ia se conhecer o jornaleiro, o verdureiro e outros prestadores de serviços que necessitamos no quotidiano, sem prejuizo de se ter relações mais universais.      

              Vale lembrar que a Brasília de Lucio Costa foi estruturada de forma assemelhada. Muitos dos problemas que a cidade hoje enfrenta decorre do abandono e desconsideração de um dos princípios básicos que orientaram a elaboração do Plano Piloto de Brasília. Este é composto por unidades de vizinhanças, razoavelmente densas e provida de serviços e equipamentos urbanos. A maior parte da expansão urbana além do Plano Piloto é constituída por áreas urbanas isoladas e distantes, de baixa densidade e desprovidas de uma adequada e bem localizada provisão de serviços e equipamentos.

             Um modelo de ocupação perdulário, caro, danoso para o ambiente e que acentua os problemas de transporte público e da dependência do automóvel. Uma configuração do espaço urbano socialmente injusta e que impõe sofrimentos e desgastes quotidianos para a população. Não tenho maiores dúvidas, de que ele é a principal ameaça para o tombamento e a preservação de Brasília como patrimônio histórico da humanidade.  

               A possibilidade, de organizar o território da cidade, na forma acima explicitada, não  é consideradas nos atuais planos diretores. Muitas cidades do mundo já colocam este possibilidade como um objetivo a perseguir. Outras, reconhecendo suas deficiências, procuram estabelecer estratégia e politícas de ajustes neste sentido. Será que isto é apenas um devaneio ou um outro mundo é possível e está ao alcance de nossas mãos? Quem viver verá.      

 

UT

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