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Esquina Urbana

25/6/2009 - IGREJINHA NOVAMENTE

arte e religião. uma relação conturbada            

            A celeuma da igrejinha continua. Obras de grandes artistas modernos europeus também provocaram reações. Aqui no Brasil basta lembrar a reação provocada pelo painel de Portinari para a Igreja da Pampulha. Admirador de Matisse, Braque e Chagall, respeito a obra de Galeno. Os dominicanos P.R. Régamey e M.A. Couturier, com sua ação pioneira a frente da renovadora revista L'Art Sacré, enfrentaram por anos e anos uma renhida batalha com setores da igreja mais avessos a arte moderna.   

              É um equivoco ver a comunidade de fiéis católicos como um todo homogêneo e coeso. Equívoco maior ainda é pensar que a parcela que rejeita a contribuição de Galeno é mais representativa e fala pelo conjunto da comunidade.  Essa comunidade continua dividida sobre muitos tópicos, incluindo a questão da relação entre arte e fé religiosa. No meu entender não se trata de uma disputa entre ignorantes e esclarecidos. A divisão deriva de duas posturas, duas concepções da Igreja Católica e de sua inserção no mundo contemporâneo. 

           Faço hoje uma transcrição do texto em que o arquiteto Rogério Carvalho esclarece e defende a restauração da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima. Rogério Carvalho é o autor e responsável pelo projeto.          

           "Entendo que restaurar é devolver unidade. O objeto deve necessariamente ser uno; deve promover ao expectador uma leitura coerente com aquilo que foi pensado, projetado e construído em determinada época. Nesse sentido, o trabalho de Niemeyer, Burle Marx, Athos Bulcão e Alfredo Volpi deveriam ser minuciosamente estudados, e após levantamento histórico, deveriam, dentro do possível, serem recuperados integralmente. A linguagem modernista e seus signos deveriam estar presentes não só na arquitetura e no paisagismo/ urbanismo de seu entorno imediato, como também nos bens móveis e integrados à arquitetura.

          O trabalho de levantamento histórico foi realizado no arquivo público do DF e nas informações disponíveis no arquivo da Superintendência do Iphan no DF. Foram consultados diversos periódicos, fotografias e textos avulsos. Foram ainda realizadas diversas entrevistas. Toda a pesquisa me levou a definir quais seriam os pontos, que tratados nesse restauro, me levariam àquela leitura coerente que já me referi.

         São eles:

        1. Recuperação do projeto paisagístico de Roberto Burle Marx;

        2. Restauro da escadaria que dá acesso à Igrejinha; 

        3. Restauro do piso externo, buscando a paginação original definida por Burle Marx;

       4. Restauro dos bancos também projetados por Burle Marx;

      5. Restauro dos azulejos substituição de algumas peças que haviam sido inseridas na década de 90 e que possuíam uma coloração muito escura; inserção de novos azulejos, na área atingida pelo incêndio, feitos pelo mesmo ceramista azulejeiro que sempre trabalhou com Athos Bulcão, porém, buscando variação de cor em três tipos para evitar o equívoco de blocos de azulejos monocromáticos;

       6. Restauro do piso interno;

      7. Impermeabilização da laje;

      8. Pintura externa e interna,

     9. Restauro dos bancos genuflexórios (madeira, ferragens e substituição do revestimento) e redesenho e confecção a partir de fotografia, do tocheiro de 17 braços desenhado por Athos Bulcão para compor a cena frontal direita ao altar - redesenho e confecção do altar desenhado por Athos e que hoje não mais é encontrado.

     10. Readequação dos objetos litúrgicos em espaço coerente com o desenho da igreja e de acordo com as normas litúrgicas definidas pelo Vaticano.

     11. Novo sistema de som, iluminação externa e interna.

     12. Prospecção e manutenção de imagens resgatadas nas paredes internas;  

      13. "Restauro" dos painéis de Alfredo Volpi.

          Este último, sem dúvida, o ponto mais delicado de todo o projeto de restauro. Na década de 90 foram realizadas prospecções integrais nas três paredes que conformam o interior da Igreja. Infelizmente, a movimentação de algumas senhoras e do pároco à época – 1962, não deixou sobrar muita coisa do painel de Volpi. O reboco foi raspado e lixado.

          Existem fotografias com as paredes prospectadas e lá dá para perceber, sem dúvida, que sobraram apenas ínfimos resquícios de policromia disformes, que impedem, com a tecnologia atual, a recuperação dos painéis. Cheguei a pensar em reproduzir as imagens do único registro fotográfico existente – Revista Módulo – do esboço de Volpi, porém, sabia que nunca conseguiria fazer com que alguém conseguisse o ritmo das pinceladas do artista e na falta de registro, nunca teria certeza de todas as cores utilizadas por ele. Todas as fotos existentes são em preto e branco.

          Entendi que deveria parar onde começava a hipótese. Por essa razão, defini que o que deveria ser restaurado no espaço relacionado ao painel idealizado por Volpi seria a ambiência que aquele painel produzia na igreja. Restauraria a intenção do artista. Ele tinha que ser respeitado tanto quanto todos os outros criadores daquele espaço.

          Ora, em local tão pequeno como a igreja, um mestre da cor como Volpi não erraria! Três paredes revestidas intencionalmente de azul cobalto produziriam introspecção; a nave ficaria ainda menor visualmente, seria promovido o encontro do fiel com Deus, não existiria nada além desse contato. Foi esta intenção, esta ambiência, que fez com que eu entrasse em contato com o Galeno para questioná-lo se aceitaria trabalhar conosco.

           Minha escolha pelo artista foi embasada naquilo que já conhecia de sua obra, e porque Galeno possui técnica, cromatismo e elementos de construção pictórica semelhantes aos de Volpi. Eu poderia ter um "quase" Volpi ou poderia ter novamente agregado àquelas paredes, arte de primeira linha. A escolha foi óbvia!

          Foram realizadas durante um ano reuniões com representantes da comunidade. Esboços do Galeno foram apresentados, criticados e construídos em grupo. Conversei com vários críticos de arte, tive notícias do curador da obra de Volpi, Olívio Tavares de Araújo, discuti com amigos artistas plásticos e tive a certeza da escolha do artista e de como deveria direcionar o trabalho de Galeno. Alguns pontos foram apresentados ao artista, que concordou plenamente com a minha posição e com as necessidades apresentadas:

          1. Necessariamente o fundo dos três painéis deveria ser azul cobalto, o mesmo utilizado por Volpi na Igrejinha e no Painel do Itamaraty, painel que também faz parte de sua fase sacra; Ladi Biezus me disse que o Volpi havia comprado grande quantidade de pigmento no tom azul cobalto.Utilizou diversas vezes esse tom em sua fase sacra.

         2. Que o painel frontal deveria conter, de maneira centralizada, uma Nossa Senhora de Fátima ladeada por dois elementos que reforçassem essa centralidade como em um oratório;

         3. Que nos dois outros painéis houvessem elementos distribuídos de maneira linear e/ou aleatória, relacionados à história da aparição de Fátima e que ocupassem visualmente a extensão de cada painel.

 

           É isso! Espero ter ajudado a esclarecer a motivação das escolhas para esse restauro/intervenção.

          O que é realmente um equívoco é acreditar que algumas pessoas teriam o direito de novamente privar toda a população brasileira da unidade daquele monumento. Não bastasse o prejuízo cultural da perda do painel de Volpi, também um prejuízo de cerca de 3 milhões de reais, que é o que valeria monetariamente o que foi pago com dinheiro público em 1958 e que meia dúzia de pessoas acharam por bem aniquilar."

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26/6/2009 - Igrejinha novamente?

Comentário por Anonymous
Achei muito profissional a explicação do arquiteto Rogério Carvalho. Parece fruto de pesquisa e conhecimento da obra arquitetônica e seu contexto na história de Brasília. A interação arte/arquitetura é o que mais se vê em Brasília, de forma extremamente adequada. Exemplo disso é o hospital Sarah Kubitschek. A arquitetura do Lelé convive com lindos painéis do Athos Bulcão. Se fosse para ser ortodoxo, ao invés de termos lindos azulejos e painéis, teríamos apenas uma foto de uma enfermeira pedindo silêncio. É a única "arte" encontrada nos hospitais. A capela do Palácio do Alvorada é um espaço religioso que convive com peixes no teto, lindamente deixados pelo prof, Athos. Galeno, Glênio Bianchetti, Bracher e tantos outros talentos nossos poderiam intervir em nossas igrejas sem ferir os princípios da Igreja instituição. Outro exemplo de tolerância, beleza e aceitação do novo é a Via Sacra pintada pelo Bianchetti e que está agora na Igreja de Bagé. E olha que é uma igreja de 1800 e tanto. E o povo de Bagé está muito orgulhoso de um filho seu emprestar seu talento para sua igreja. Se há alguma coisa para gerar protesto, por que não vamos todos para a porta do Senado ao invés de criticar o IPHAN, e principalmente o artista Galeno? Abs. Márcio Nuno Ganzatto
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29/6/2009 - Deus quer a transformação do coração do Homem.

Comentário por Adriana2009
sobre esse tipo de caso "ELE mesmo disse:
- " Dái a Cezar o que é de Cezar... e dái a Deus o que é de Deus!

O amor do Senhor.
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