Inventando a vida

EXCESSOS

04:40 PM, 25/10/2016 .. 0 comentários .. Link

           São o resultado de algo que internamente provoca uma profusão de estímulos que não cessam de incidir sobre a consciência. São excessivos em termos de ação e reação. São mecanismos automáticos que uma vez disparados, prosseguem. O indivíduo sob sua ação, não consegue inserir-se no tempo oportuno entre a fala e o silêncio, entre o pensamento e a sensação, entre a idéia e seu preâmbulo. Não há ritmo, não há música, não há pausas, não há avanços e recuos da ação mental. É como tempestade que cai, como vento que não cessa, como sensação que não se detêm. 

          Sob tais excessos esconde-se uma condição: aquela em que o razoável do sentido e o que é pensado e/ou proferido, não se integram nem se harmonizam. Tudo soa como disparate, como convulsão, como fluxo incontido do que pode e não pode ser dito, pensado ou elaborado.

           A causa desse fenômeno é, sem dúvida, a exposição excessiva da subjetividade aos fatores de estimulos intensos: medo, ameaça, impotência, desamparo, solidão, ausência de auto-percepção e muito mais. 

          Ocorre que a invasão de sensações desagradáveis produzidas pela exposição acima referida, é de tal ordem, que, mesmo que  queira evitar, a partir de um certo momento é impossível à subjetividade parar a enxurrada de estímulos negativos e aterradores. 

           As principais fontes de estimulações excessivas são: convivência familiar com violências, ambientes sociais instáveis e ameaçadores, desconfirmações continuadas de ações que devem receber do outro resposta e afirmações, frustrações incessantes, indiferença por parte de pessoas de quem se espera algum interesse e preocupação e, principalmente, dores psicológicas provenientes de perdas, separações e distanciamentos.

          O melhor a fazer é evitar a exposição continuada a tais fatores. A vulnerabilidade da condição de excessos invasivos está diretamente ligada à não evitação das causas (estimulação) deles. 

           Uma vez conseguida a distância confortável, os excessos diminuem até poderem ser controlados pela noção de tempo, de tempestividade que orienta a elaboração do pensamento, das ações e das experiências.

 

 

 

 

 

 

 

 



O ARCO DE MAGUEREZ

08:16 PM, 24/10/2016 .. 0 comentários .. Link

     Alguns problemas da realidade envolvem a compreensão lógica do material de estudo e sua racionalização.

     Deve -se partir da realidade e para ela voltar com um problema formulado . 

     A coisa toda consiste em partir da realidade e a ela retornar com problematizações realizadas e aplicadas.

     Vale a pena, também, ler e refletir sobre trabalhos feitos para teorização.

Há outros modelos de ARCO. Mais Ricos de detalhes.

                                                              

 



BELTRAME QUER SAIR

08:26 PM, 11/10/2016 .. 0 comentários .. Link

                           Depois de comandar com firmeza e perseverança o Programa de Pacificação das Favelas, Beltrame, diante da realização de sua profecia, deixa o cargo de secretário de segurança do Rio. A profecia foi a seguinte: se depois de pacificadas as favelas não forem administradas pelo Estado com educação, saúde e cidadania, tudo voltaria ao que era antes. E, de fato, não sendo administrada, tudo ficou como dantes no quartel do Abrantes. Aliás, pior!

                     Acontece que os espaços vazios de qualquer cidade são, inevitavelmente, habitados por grupos paraestatais. Eles são arrogantes, independentes, têm suas próprias leis e detêm poder de vida e de morte sobre os que habitam os lugares que invadem. Além disso, têm muito dinheiro, muitas armas e muitos aliados nos mais altos níveis dos governos e até dos militares.

                     Faz bem em sair, o prestimoso secretário. Seu trabalho será sempre reconhecido e se constuirá sinal claro de que estamos muito longe de contarmos com estados seguros e cidadãos.



REALIDADE

08:24 AM, 31/7/2016 .. 0 comentários .. Link

          O que é realidade? Qual sua origem? Como funciona? São questões de difícil resposta. Contudo, todos sabem que existem sistemas de comunicação que efetivamente modificam o ambiente.  A ideia de uma cadeira pode construir uma ou,  a ideia de felicidade pode ajudar uma pessoa a sentí-la. Lacan certa vez escreveu que a palavra elefante mudou a vida desse animal no mundo, pois, por ela, mesmo sem conhecer o animal, pessoas começaram a decidir a sorte dele. Quando um conjunto organizado de forma sistemática possui correlações lógicas entre seus elementos, de tal forma que as leis do registro simbólico (palavras) podem movimentá-lo e, mesmo, transformá-lo,  tal conjunto pertence ao que se convencionou chamar de realidade.

          Esta tem variações entre os indivíduos, constituindo para cada um o seu mundo. É impotante notar que tal mundo particular pode ser compartilhado coletivamente gerando assim a realidade social, mais genérica e mais imprecisa que a realidade individual.

          Realidade é um conceito prático. Na medida en que o universo de cada pessoa se dinamiza e se amplia com as múltiplas representações aprendidas, a realidade vai sendo vivida em toda a sua diversidade, possibilidades e dinamismo.

          Se é assim, pode-se dizer que a realidade não é algo externo que se impõe sobre os sujeitos. Pelo contrário, é fenômeno construído, quer pessoal quer coletivamente, podendo mudar de acordo com as necessidades dos sujeitos.

          O mundo de cada um é tão somente a sua realidade. O que determina sua viabilidade e desempenho depende da disposição de cada um sobre questões como o conhecimento, o trabalho e os resultados que persiga.

         Há pessoas presas em ideologias, muitas vezes de ordem religiosa, ou por limitações culturais de usos e costumes, ou, ainda, por deficiências particulares em termos de funções mentais e subjetividades permitidas. Tais prisões empobrecem as chances de mudanças desejáveis. Contudo, por mais determinantes que sejam tais fatores, a tendência dos indivíduos e coletividades é , avançarem em termos de complexidade e criatividade no que diz respeito à realidade.

        Em outras palavras, ninguém está condenado a uma realidade medíocre. Dependendo do tempo e das oportunidades, as pessoas podem, em sua  maioria, mudar para melhor a realidade que vivem.

 

 

 



HOMENAGEM A WALY SALOMÃO

05:44 PM, 19/7/2016 .. 0 comentários .. Link

 

MÁSCARA
( Homenagem saudosa a Waly Salomão, meu amigo)

Entre nós representa o indefinido de quem quer que seja,
mas só no carnaval, confessada.
Entre outros de outras terras,
umas, talvez mais que outras,
a presença do que se deve temer, depender, arrepender.
Manifesta em rituais esotéricos e até religiosos,
o terrível sob a máscara,
nela confessado,
objetiva-se, extravasa, goza demais!
Porém, toda máscara é, de fato,
retorno do que se escondeu,
por proibido à consciência,
por confissão, vocação e inclinação
ao subversivo despudor,
ao escandalizante que as orações
em vão tentam exorcizar.
E assim muitos sorrisos,
muitos abraços,
um número imenso de preces
o rigor da castidade
o primor da maior gentileza,
podem ser apenas máscaras do que retorna,
sem jeito, sem remédio, sem medida,
sem consolo.

Como dizem po aí:
Qual é a sua?
Qual é!!!!!!
Qual?

Abaixo: Fábrica de Poemas, dentre outras.

https://search.yahoo.com/search?ei=utf-8&fr=tightropetb&p=poesias+do+waly+salom%E3o&type=21611_061916

poesias do waly salomo - Yahoo Search Results
Oct 09, 2007 · Era ninguém menos do que o saudoso poeta Waly Salomão. ... Nos links abaixo você poderá ler mais poesias...
search.yahoo.com



SERVIDÃO VOLUNTÁRIA

08:10 AM, 16/7/2016 .. 0 comentários .. Link

           Etienne De La Boétie, na França do século XVI, escreveu o seu discurso sobre a servidão voluntária. Sendo um anarquista de carteirinha, propunha que a servidão tem elementos de permissão. De fato, alguém (cônjuges, filhos, parentes, patrões, governantes) que nos submeta ao seu mando e domínio, só o faz com a nossa cooperação. Damos a eles o direito e a vez de transformarem a vida numa experiência infeliz. Entregamos docilmente a dignidade, a liberdade, a renúncia ao prazer, o direito de escolher e decidir. Isso nos transforma em pessoas humilhadas, destituídas de dignidade, constrangidas e medrosas.

         Contudo, Boétie chama a atenção para o fato de que essa dominação tem a nossa cooperação irrestrita. Ninguém nos dominaria se não cooperássemos, se não colaborássemos. O jogo é  muito simples: os senhores do mando exaltam a conduta obediente, cooperadora e gentil. Condenam os desobedientes, os resistentes, os que não ajudam, muitas vezes perseguindo, ameaçando e matando. Prometem aos obedientes o paraíso e o beneplácido do poder. Serão sempre louvados e exemplos de sua geração.

         Com isso, e só com isso, conseguem a necessária pressão social para desencorajar quem não queira cooperar. A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA É UMA VERGONHA DENUNCIADA DESDE A IDADE MÉDIA, POUQUÍSSIMO QUESTIONADA E, MENOS AINDA, RESISTIDA.



POLÍTICOS NÃO TÊM PÁTRIA

08:32 PM, 23/6/2016 .. 0 comentários .. Link

                  Sua única referência é sua imagem pública: dedicados ao povo, trabalhadores, lutadores, heróis da tribuna contra os opressores dos pobres. POR TRÁS DOS HOLOFOTES, A MAIORIA É CONSTITUÍDA DE PREDADORES PERIGOSOS, CANIBAIS DE SEUS ELEITORES, FERAS TERRÍVEIS CONTRA OS MENOS FAVORECIDOS, CRIMINOSOS PERVERSOS QUE SUBMETEM SUA TERRA E SUA GENTE A TUDO O QUE SEU DESPREZO CONCEBE.
                  O maior problema com esse tipo de gente são as oportunidades que têm, proporcionadas a cada eleição pelas autoridades da justiça eleitoral e de outras instâncias do judiciário. Uma delas se insurgiu de vez - o Supremo, talvez porque a Constituição que defendem tenha sua origem no mesmo povo que os políticos devoram. POIS QUE SE INSURJA SEMPRE, ATÉ LIVRAR NOSSA TERRA DA PRAGA QUE A CONSOME POR INTEIRO.



MASSACRES QUE ATERRORIZAM

11:41 AM, 12/6/2016 .. 0 comentários .. Link

                A tragédia de Orlando é uma das maiores que o país já teve. Por que se mata assim? Não  é nenhum mistério. A história do país é cheia de massacres famosos considerados heróicos. A dos seus indios em batalhas sangrentas é um exemplo. Conta-se que o general Custer em 1876 sofreu grande derrota imposta pelo povo Dakota e Cheyenne em Little Bighorn, como vingança às dezenas de mortes de mulheres e crianças em aldeias cujos guerreiros estavam ausentes.

                Em 1863 explodiu o maior massacre da guerra civil americana. Casualmente, no dia 30 de junho de 1863, um destacamento sulista entrou em Gettysburg à procura de sapatos para os estropiados e descalços soldados de seu exército. Ao invés de encontrar sapatos, encontrou uma brigada de cavalaria do Norte. A partir daí, mensageiros dos dois lados partiram em todas as direções para avisar o que tinham visto. Foi assim que para lá convergiram 150 mil homens. No primeiro dia da batalha, 1 de julho de 1863, o Sul tinha superioridade numérica e levou a melhor. As tropas do Norte acabaram o dia fugindo em disparada pelas ruas de Gettysburg, ocupando em seguida colinas importantes na entrada da cidade. 

               Decorridos quase 150 anos, Gettysburg pouco mudou desde que o último tiro foi disparado, desde que o último soldado voltou para casa. Quem visitar Gettysburg verá os campos de batalha preservados, museus com histórias e objetos de comandantes e de soldados comuns e poderá passear por uma cidade do século XIX, com seus restaurantes típicos da época, galerias de arte e de antiguidades. Provavelmente encontrará pessoas trajadas com as roupas daqueles tempos. Civis e militares. Durante feriados e fins de semana, trechos da batalha são revividos por centenas de historiadores (“reenactors”) caracterizados como combatentes do Norte ou do Sul (ver ilustração). Eventualmente, poderá até mesmo encontrar um participante verdadeiro da batalha, diz uma propaganda de turismo nos EUA. 

              De fato, armas, massacres e força bruta fazem parte da história americana. Contudo, tudo isso não é reprovado nem há lamento. Parece haver, ao invés, um orgulho pela valendia, denodo, coragem e determinação dos americanos. Algo por demais heróico para ser ignorado.

              Em consequência não há limite. Matar os opositores, os descrentes, os gays e os negros faz parte da "moral" heróica do americano médio. Uma pena, pois é um povo que poderia fazer coisas grandiosas dentro e fora do seu país.

             Massacres não podem ser entendidos como atos de justiça. Como dívida que se deve aos bons costumes. Como redenção da moral agredida. Toda e qualquer violência deve ser combatida, desaconselhada, esvaziada de qualquer valor e desencorajada. Crimes não redimem, apenas semeiam ódios e peseguições.

 

 



RELAÇÕES SENTIMENTAIS E LIBERDADE

01:08 PM, 22/4/2016 .. 0 comentários .. Link

                                      As pessoas se acreditam livres, principalmente em algumas situações:  tomada de decisões, escolhas simples como o que vestir, onde ir e o que fazer, rejeitar o que não gosta ou o que incomoda e, também, entrar e sair de situações que envolvem o trabalho, o amor, a amizade e o estudo.

                                      Mal imaginam que, de fato, liberdade é apenas uma ideia. Uma ideia necessária, interessante, presente em quase todas as experiências do viver, porém apenas uma ideia. Mas o que é uma ideia? Grosso modo diz respeito ao pensamento elaborado com sentido e com a intenção de alguma coisa. O fato de haver a suposição de liberdade provém da ampla possibilidade de variedade, mudanças, nuances e formas que o mundo das ideias tem.

                                      Porém, quando se trata de aplicá-las à realidade, as dificuldades são enormes, pois, o mundo da realidade com sua ordem e suas regras não admite a intervenção de qualquer uma delas. O que ocorre nesse encontro é a reelaboração constante e a busca incessante do encaixe entre os dois mundos.

                                      Nesse contexto, é evidente que na prática a liberdade não prossegue além da elaboração dos pensamentos.  Depois disso, a lógica da realidade e suas exigências se impõem e tudo fica muito mais difícil.

                                      Se a vida sentimental é feita de sonhos, a convivência dos pares não é. Nela as diferenças comparecem estabelecendo tensões, oposições, resistênciaas, estranhezas e a necessidade de um jogo dialético muito bem jogado. Isso quer dizer que no encontro com o outro, mesmo em termos sentimentais, não há nada de pacífico, de tranquilo nem de amoroso. É paulera!

                                       Se é assim, liberdade é poder pelo menos pensar que se pode viver, fazer e querer outras coisas que não a doce prisão de  gaiolas sentimentais, tão antigas e tão insistentes. É difícil compreender porque pessoas sem nenhuma liberdade, acreditam que podem decidir suas vidas dentro dessas gaiolas. De fato não há como. O jeito, ainda bem que existe, é acreditar que é possível viver coisas muito diferentes e muito melhores, assim que se possa providenciar um estar fora da gaiola, mesmo dentro da relação sentimental.



DEPENDÊNCIA DE ALGUÉM

06:50 AM, 10/4/2016 .. 1 comentários .. Link

          É uma situação difícil de confessar e mais difícil ainda de sair.Trata-se de pessoas que renunciaram à autononia. Em algum momento da vida "escolheram" não se responsabilizar por nada. Talvez porque lhes pareceu pesado demais, complicado demais, ameaçador demais ou tudo muito confuso para arriscarem-se na coisa responsabilização.

          Sabe-se que a o básico da conduta consiste numa decisão livre e, se possível, "esclarecida", seguida de uma responsabilização  pessoal livre ( isso é comigo) e de uma ação livre orientada para algum resultado ou efeito, cuja perdcepção por parte do outro o leva a reconhecer, qualificar ou, não, a conduta. Evidentemente que ninguém vive para si, logo, toda e qualquer conduta é endereçada para alguém  que, mais cedo ou mais tarde confirma ou desconfirma o seu autor. Se o faz dando-lhe algum feed-back, este existe, se, ao contrário, o vê com indiferença, este não existe.    Esse é o esquema essecial da compreeensão do que seja uma conduta e o fato de alguém existe a partir dela. . No processo, alguns ou todos os fatores envolvidos podem condunfir e desconfirmar o sujeito. Por exemplo, o medo à liberdade, fenômeno discutico por alguns autores como Erick Fromm, dentre outros; o complexo de inferioridade  ou, mais precisamente, a inércia de quem está numa zona de conforto vivendo com o mínimo de dignidade, de respeito, de criação, de iniciativas, de produção do desejo ou de relações instigantes; a terceirização das decisões porque decidir cansa e requer ousadia e coragem e finalmente, a famosa preguiça de viver. É o caso de quem passa o dia todo hipnotizado pela televisão ou na cama, de tal forma que o lugar em que fica já tem o formato de seu corpo. Tudo isso, na medida em que desconfirma o sujeito, o condena à dependência de outro sujeito.

          O dependente percebe-se infeliz, sem forças, muito angustiado, altamente ansioso e impotente. As vezes literalmente se arrasta, não tendo iniciativa de se levantar sequer da cama ou do sofá.

          Evidentemente as pessoas têm uma tendência forte à relações sadomasoquistas. O sofrimento implica as pessoas nu laço doloroso e estas não cessam de repetir o ciclo vicioso da desconfirmação infinita. Passarão todos os seus dias, se possível, vivendo assim: inertes, sofredores dos mesmos males, infelizes, vítimas de sua não existência. Desistiram de viver.

          Quem quer sair dessa deve aprender a correr riscos, ousar e se lançar no campo da liberdade das decisões, da responsabilização, da ação, dos efeitos e do feed back do outro. Se este não se importar, há quem se importe, quem curta e até quem ame.  E aí é nóis mano. Pra o que der e vier!

 

 



INÉRCIA E CONSCIÊNCIA

10:29 AM, 29/3/2016 .. 0 comentários .. Link

 

Há pessoas que, por mais e melhor que saibam das circunstâncias que vivem, não conseguem agir sobre as causas de seu mal estar. É como se sua consciência mostrasse o problema mas não a solução. O pensar e o agir estão desligados, separados, irreconciliáveis. Esse problema está presente em milhares de pessoas. Desde aquelas que se ligam sentimentalmente a pessoas que as condenam à dor quase insuportável, até aquelas que simplesmente não conseguem sair de suas casas para estudar ou trabalhar.
Quando a consciência está fora de ação e o discernimento empobrecido a pessoa funciona no automático. O problema é que ela não sabe a rota que sua nave segue e o final pode ser a morte prematura ou a ruína existência. É uma questão problemática e quem está nessa condição deve se colocar em situação de cuidado e busca de recuperação urgente da integridade de sua consciência. Não há fórmula mágica nem autoajuda que resolva. É preciso muito esforço e trabalho. Viver por viver, dependendo do prazer de um momento ou de uma substância psicoativa é muito pouco. Há coisa melhor a fazer.



GENTE MAGOADA

09:49 PM, 2/3/2016 .. 0 comentários .. Link

É gente que foi desconfirmada quando esperava coisa melhor.
Gente ferida por uma ponta qualquer de maldade.
Gente que não pôde se resguardar do golpe que não esperava.
Gente que acreditou no "bem - querer" dos seus inimigos.
Gente que acreditou na lorota do merecer e não levou nada.
Gente que esperava a felicidade num encontro. E não encontrou.
Gente, enfim, que precisa dispor-se ao que vier. Seja o que for, como for, como der.



DA NENHUMA LEI À BRUTALIDADE DA LEI

03:14 PM, 21/2/2016 .. 0 comentários .. Link

     Na música "A Sociedade Alternativa", Raul Seixas repetia "faça o que quiser porque é tudo da lei". Poucos compreenderam o que o Raul disse. Pensaram que por se tratar de uma enorme liberdade, tudo que as pessoas fizessem na sociedade alternativa seria legal. Contudo, é mais do que isso. Ao protestar contra a ditadura o Raul, expulso do país em 76, se não me engano, descobriu que tudo era da lei. Quer dizer, não havia nada fora da lei. Músicas, poesia, utopias, literatura, filosofias, geografia, lingua portuguesa ( os dicionários foram abolidos, só valia o que os militares publicavam) ,enfim, tudo era da lei. Daí o Raul sacou o campo fora da lei, o campo do gozo, onde se podia fazer o que se quizesse. Nada é absoluto, muito menos a lei. Entre a lei total e a vida as pessoas escolhem a vida. A lei que se dane. Foi assim a geração do Raul. Se tudo era da lei (pertencia a lei),  então eles estavam fora, pois que queriam viver. A lei matava os que ousavam. TUDO EM NOME DO BEM E DA SEGURANÇA NACIONAL.

     Os governos petistas experimentaram de modo trágico o drama do Rauzito. Um governo sem lei alguma quis governar na base do tudo posso porque tenho legitimidade popular. A lei era coisa dos burgueses, das elites. Agora que o povo estava no poder a lei viria dele. Só que não veio. E mais uma vez o pessoal da grana grossa e da pica grossa, resolveu colocar a única lei que conhecem. Expoliar uma nação até deixá-la arrasada. Tudo arrebentado devem os gestores do caos, agora,  inclinar-se para a lei bruta do "CALE-SE",  música em que um constrangido Gilberto Gil e um irônico Chico Buarque compuseram sobre a brutalidade dos militares e que hoje, tal como antes, assola a liberdade das pessoas.  TUDO É BRUTO. Enterramos nossos ditadores sem saudade alguma. Obedecemos ao pedido de Figueredo, o último ditador: "ME ESQUEÇAM!

    Contudo, ainda queremos nutrir a esperança de que acabado pânico, a raiva e a vaidade imensa, pessoas que admiramos antes voltem e se reconciliem com os princípios de dignidade e promoção do humano que sempre nos guiarão. HÁ O LUGAR PARA A LEI E HÁ LUGAR PARA OS "FORA" DA LEI PORQUE MUITO DA VIDA NÃO SE FAZ DENTRO DA LEI  NUMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA. GOVERNO E GOZO PODEM MUITO, DESDE QUE HAJA LIMITES.

    "APESAR DE VOCE AMANHA HÁ DE SER OUTRO DIA", dizia ainda o Chico naquele tempo. Acreditamos ainda nisso e esperamos por isso.



A QUESTÃO DO LULA NA ATUALIDADE

05:05 PM, 17/2/2016 .. 0 comentários .. Link

    A história de Lula se encaixa perfeitamente no conto árabe das Mil e Uma Noites. Pode-se ler do seguinte modo: o tesouro é do PSDB, o PT (Ali)  o toma para si, os ladrões que não têm partido nem proteção, apesar de estarem com o PSDB, PMDB e PT e outros são presos e hoje, o Ali quer que a Morgana, sua criada, ( essa é fácil), o proteja de todos os males. A história diz que ele se sai bem. Será?!!!

    Ali Babá, um pobre lenhador árabe, esbarra com o tesouro de um grupo de quarenta ladrões, na floresta onde ele está cortando árvores. O tesouro dos ladrões está numa caverna, que é aberta por magia. A gruta abre-se usando-se a expressão "Abre, ó Simsim" (geralmente escrito como "Abre-te, Sésamo", em português), e fecha-se com as palavras "Fecha, ó Simsim" ("Fecha-te, Sésamo"). Quando os ladrões saem, Ali Babá entra na caverna, e leva parte do tesouro para casa. O irmão rico de Ali Babá, Cassem, questiona o seu irmão sobre a sua inesperada riqueza, e Ali Babá conta-lhe tudo sobre a gruta. Cassim vai até a gruta para tirar mais uma parte do tesouro, mas na sua ganância esquece as palavras mágicas para abrir a caverna e os ladrões acabam por encontrá-lo lá e matam-no. Como seu irmão não volta, Ali Babá vai à gruta com o fim de o procurar. Encontra o corpo e tira-o da gruta, mas não o leva para casa. Com a ajuda de Morgiana, uma astuta escrava da família de Cassim, ele faz um bom enterro a Cassim sem suscitar quaisquer suspeitas sobre a causa da sua morte. Antes o enterrarem, Morjana foi a uma sapateiro da cidade, vendou-lhe os olhos e mostrou-lhe o caminho até à casa de Ali Babá. Quando chegaram, ela pediu ao sapateiro que cozesse o corpo.

     Os ladrões, quando não encontram o corpo, concluem que alguém sabe dos seus segredos e saem a busca de uma pista. Um dos ladrões oferece para buscar pistas e foi até à cidade onde viu o sapateiro cozer sapatos, ele perguntou como conseguia ver com a sua idade para cozer. O sapateiro disse que tinha bons olhos e até já cozeu um corpo de um homem. O ladrão pediu para levar ao lugar onde tinha feito isso e assim o fez. Chegaram à casa de Ali Babá e o ladrão marcou com giz a porta e voltou para a floresta. Morgiana, que ia a sair viu a marca de giz e estranhou, depois marcou também com giz mais algumas portas da mesma rua. O ladrão quando contou ao chefe o que fez, levou-o à casa que tinha marcado, mas viram que também estavam marcadas outras casas, o ladrão foi de imediato decapitado por ter falhado a sua missão. Outro ladrão também foi enviado com a mesma missão e graças outra vez ao sapateiro, mais uma vez a casa ficou marcada com giz, mas Morgiana foi outra vez esperta, e também o segundo enviado acabou morto. Depois foi a vez do chefe, e como era mais esperto que os outros ladrões, em vez de marcar a casa com giz, fixou-a e estudou todos os seus pormenores para não se esquecer dela.

     Então, o chefe dos ladrões finge ser um comerciante de óleo que necessita da hospitalidade de Ali Babá. Traz consigo mulas carregadas com trinta e oito jarros de óleos, sendo que apenas um estava com óleo enquanto que os outros trinta e sete escondiam os outros ladrões. Os ladrões planejam matar Ali Babá enquanto ele dorme. No entanto, Morgiana descobre-os novamente e os trinta e sete ladrões são mortos, nos jarros onde se escondiam, quando neles se verteu óleo fervente. Descobrindo que todos os seus homens já estão mortos, o chefe dos ladrões fugiu.

      Para se vingar, o chefe dos ladrões estabelece-se como comerciante e finge-se de amigo do filho de Ali Babá (que agora está a cargo da empresa do falecido Cassim). Logo é convidado para jantar à casa de Ali Babá. O ladrão é reconhecido por Morgiana, que demonstra uma dança com um punhal e termina por espetá-lo no coração do ladrão, num momento em que ele está desprevenido. A princípio, Ali Babá fica irritado com Morgiana, mas quando descobre que o ladrão o queria matar, ele concede a liberdade a Morgiana e ela casa-se com o filho de Ali Babá. Assim, a história termina feliz para todos, exceto para os quarenta ladrões e para Cassim.



CORRUPTOS NÃO SE ARREPENDEM

11:49 AM, 31/1/2016 .. 0 comentários .. Link

     É o que afirmou o Papa Francisco no livro " O Nome de Deus é Misericórdia". Essa é uma forma de tratar o problema político no capitalismo de forma simplista. A corrupção nesse regime econômico não é um erro de conduta, sequer de desvio da ética religiosa. É método, meio que muitíssimas pessoas engendram para atingirem seus objetivos. Os corruptos são eficientes e eficazes, competentes no que querem e no que fazem. Tendem ao corporativismo a formarem  grupos de aliados com muitos atores e cooperadores.

     Têm desprezo por qualquer forma de humanismo e, a maioria, é muito religiosa. Alguns fazem promessas e orações em grupo para que suas ações tenham sucesso.

     Têm um faro raro para as oportunidades de ganho.

    Adoram o poder e, via de regra, são muito vaidosos. Muitos gostam de ostentação e por isso são muito respeitados.  

    A maioria da população os despreza, mas essa mesma maioria quer também ser eleita para os pleitos políticos.  (Of course, dear).

    A corrupção é uma instituição sólida, possui, portanto, mecanismos estatais e privados de sustentação de há muito estabelecidos. Contudo, os corruptos, assim como os traficantes, têm de ser combatidos. Sua multiplicação é letal para uma nação e um povo. Destroem países e matam pela miséria milhões de pessoas no mundo.



O PENSAMENTO MÁGICO

08:43 AM, 30/1/2016 .. 0 comentários .. Link

É aquele em que o sujeito pensante, não se preocupa com os processos de produção da vida. O sol nasceu porque faz isso todo dia, o almoço está pronto porque tem de estar, afinal, a fome precisa. Quer um amor na vida, mas tem que ser mágico, isto é, acontecer de repente, do nada e daí começar a existir. Contudo, como o mundo é mesmo muito mal, pessoas queridas morrem, acidentes acontecem, coisas negativas também. Por isso muita gente vive triste. Mas se as pessoas desejarem firmemente, com fé e persistência a vida torna-se boa, como diz a novela global: "Eta Mundo Bom!" Aliás, o nome de um dos protagonistas é Pancrácio, quer traduzido significa: aquele que pode tudo. Tem todo poder.
O ruim dessa situação é que o pensamento mágico é próprio de crianças na fase pré-operatória de Piaget. Pessoas com pensamento mágico recusam-se a se tornarem adultas e podem ter enormes problemas com iss
o
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"CAÍA A TARDE FEITO UM VIADUTO"

10:27 PM, 29/12/2015 .. 0 comentários .. Link

COMO EM 1978, PRECISAMOS DE UM HINO QUE UNA O BRASIL.

     O Barão de Itararé, grande Gaúcho/Carioca, Tijucano, "foi candidato em 1947 a vereador do Distrito Federal, com o lema "Mais leite! Mais água! Mas menos água no leite!", foi eleito com 3669 votos, o oitavo mais votado do PCB ( Muito esquerda para a época). Porém, em janeiro de 1948, seus vereadores foram cassados: "Um dia é da caça... os outros da cassação", afirmou o barão. Aliás, o Leandro Karnal diz que para ele, o barão, a corrupção era uma bela festa, com muitos ganhos para poucos, para a qual não fora convidado. Se tivesse sido, não seria corrupção. Isso o Cazuza repetiu também. Nenhuma diferença dos tempos getulistas ( Getúlio Vargas, ídolo do Lula) que produziriam a tragédia de agosto de 54 e a maior, aquela de dez anos depois, março de 1964: A Revolução.

     Em 1978, reagindo muito e inspirados por Chaplin que morrera em 1977, João Bosco e Blanc, compuseram o Bêbado e o Equilibrista. A corrupção que causou o desabamento do Viaduto Paulo de Frontin, que vi com meus olhos, e o choro das viúvas Maria e Clarice, esposas de Manuel Filho e o judeu Herzog, respectivamente, mortos nos porões do DOI - CODI, e que me custaram dois meses da mais escura depressão, estão na música que Elis Regina imortalizou. Até hoje, canto, muito desafinado a música sem nunca esquecê-la. João declarou: temos um hino e com ele uma revolução.

     E temos hoje, igualmente corruptos e violentos ( uma festa para a qual não me convidaram), e precisamos também de um hino, como em 78. Um que una o Brasil. Quem o fará? O MORO?!! O Aécio?!!!! A dupla "Calheiros e Cunha"?!! O editores da Veja?!!!
     Precisamos muito da ajuda dos Eunucos: aquele pessoal que não tinha mais saco, disse o Prof. Leandro um dia desses.



CASAMENTO CIVIL: SUA FUNÇÃO

12:48 PM, 28/12/2015 .. 0 comentários .. Link

24/01/2013 16h25 - Atualizado em 24/01/2013 16h25

História do casamento civil no Brasil acompanha as mudanças da família

Direito completa 123 anos e pode evoluir para incluir união homoafetiva

[Casamento Civil (Foto: Divulgação)] Assinatura do papel: direito ao casamento, mas
também ao divórcio.

A história do casamento civil no Brasil surgiu com a República, com o então chefe do Governo Provisório Marechal Deodoro da Fonseca. Foi no dia 24 de janeiro de 1890 que o decreto número 181 entrou em vigor. No Dia do Casamento Civil, este direito completa 123 anos e é motivo de reflexão. Desde então, o contrato entre duas pessoas que desejam se unir passou por profundas transformações, acompanhando as mudanças da sociedade brasileira.

A primeira delas foi a possibilidade de dissolver o contrato. Se, no casamento religioso, a família é indissociável, e serve para fins reprodutivos, para o civil, o casamento acontece por amor entre duas pessoas. E esse amor pode acabar. Mas essa mudança aconteceu aos poucos. A lei previa a “separação de corpos”. Na época, era possível separar o casal se houvesse ocorrido adultério, injúria grave, abandono voluntário do domicílio conjugal por dois anos contínuos ou, então, mútuo consentimento dos cônjuges. Mas o casamento em si não era desfeito.

O desquite chegou em 1916, com o Código Civil. Foi 61 anos depois, em 1977, que uma emenda constitucional usou pela primeira vez, explicitamente, a palavra divórcio. Mas o casal precisava estar separado judicialmente há mais de 5 anos ou de fato há mais de 7 anos.

Com a Constituição de 1988, aconteceu a mudança mais significativa por ampliar o conceito de família, saindo do clássico mãe-pai-filhos. “A Constituição foi uma quebra de paradigma. A gente passou a dar valor à pessoa e não mais à instituição. Ou seja, antes, se meu pai tivesse um filho fora do casamento, esse filho não teria direito algum. Com a Constituição, ele passa a ter”, conta o professor de Direito de Família da Universidade Federal do Rio Grande do Sul  Miguel Antonio Silveira Ramos.

A Constituição também reconheceu a existência de diferentes estruturas familiares, como as monoparentais (chefiadas somente pelo homem ou somente pela mulher) e as socioafetivas (quando a convivência social entre a criança e o adulto se transforma em uma relação entre pai e filho). “A nova constituição valorizou o afeto entre as pessoas. Porque é o afeto, o amor, que gera o vínculo familiar”, diz o professor. “O amor é capaz de gerar vínculos, mas também de desconstruir vínculos”, completa.

Outro ponto inovador foi o reconhecimento das uniões estáveis e a possibilidade de convertê-las em casamento civil.

O que falta?
As mudanças continuaram e, em 1994, houve o primeiro caso de reconhecimento à união estável homoafetiva no estado do Rio Grande do Sul. A luta para que casais do mesmo sexo tenham o direito ao casamento não é nova. “Em 1988, a Constituição formalizou a união estável entre um homem e uma mulher. Mas o judiciário reconheceu diferentes uniões, inclusive a de famílias homoafetivas. Cada juiz pode decidir fazer a conversão da união estável em casamento ou não”, conta o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) que briga para mudar os parágrafos 1, 2 e 3 do artigo 226º e incluir a possibilidade de cônjuges do mesmo sexo se casarem. “A diferença da união civil para o casamento é que o casamento muda o estado civil das pessoas de solteiro para casado. Além disso, queremos ter o direito à adoção, ao reconhecimento da relação no exterior – já que união civil não é reconhecida em outros países. O casamento amplia os direitos de todos e promove a igualdade. O futuro do casamento civil é o casamento para todos”, completa.



AMORES DIFÍCEIS

07:13 AM, 26/12/2015 .. 0 comentários .. Link

     Rembrandt, o sublime pintor Holandês,  aclamado e amado no início do século XVI, imaginou a  Batesebà de Daví de um modo tranquilo, espontãneo e muito feminino,  segundo os padrões de beleza do seu tempo. O jogo de luzes, os detalhes que destacam a figura e deixam o fundo na penumbra favorecendo a perspectiva, até certo ponto pobre,  para a genialidade de Rembrandt, (isso porque padecia de uma deficiência de visão que o fazia recorrer a uma perspectiva tonal de claro-escuro muito carregada), transforma a cena numa peça complexa de paixão, dúvida e dor. Seja como for,  foi essa situação que devolveu ao rei hebreu a esperança perdida com sua mulher Mical,  filha do rei Saul, seu predecessor. A esperança perdida o foi por causa dos mesmos motivos pelos quais ainda hoje acontece: recusa, desvios, mágoas (todas), resistências, distâncias, ódio familiares e muita coisa feia vivida.

     Não existia em Davi outra preocupação senão a de sobreviver à loucura do rei que o queria morto. Mical não aceitou, de modo algum, estar entre os dois. No início ajudou o marido, mas depois ficou tudo muito pesado, difícil, imcompreensível, louco demais. Ela, por fim, desistiu, abandonando o projeto da união conjugal e a paceria com o esposo.

     Anos depois, tudo acabado, Davi feito rei depois do suicídio do ex-sogro, encontra Batesebá (II Samuel, 11), casada, linda, brilhante, que lhe devolve a esperança de amar de novo. Havia, é claro, o problema de ela ser casada, de ela, possivelmente, ter amado muito seu marido, de, enfim, o caminho para ela estar impedido. Davi o matou e, como todo canalha, proseguiu sem nenhum arrependimento. Casaram-se, tocaram a vida e não se sabe o que foi feito da esperança. E nem interessa!

     A única coisa certa nesa história, é que a questão amorosa, romântica ou, não, sempre será a mesma em todo e qualquer tempo: incerta, improvável e algo que sempre atraiu homem e mulheres na história de modo devastador ou, simplesmnte, estranha, como foram os amores do grande Rei hebreu.

     Veja a música Halleluja, do Leonardo Cohen, cantada por ele, narrando todo o processo complicado de Davi e Batesebá.


 

 

 



O CASO FABÍOLA NAS REDES SOCIAIS

10:37 AM, 23/12/2015 .. 0 comentários .. Link

     O marido traído por Fabíola com seu cunhado, chamando um amigo para gravar as cenas que comprovariam o adultério, submeteu a esposa e o cunhado amante, ao vexame de terem suas imagens, humilhações, xingamentos e o carro semi-destruído divulgados na internet. Pediu para que chamassem a Polícia que veio, sem saber, contudo que o único preso seria ele próprio. O caso dividiu opiniões, fez muitos maridos temerem manicures ( desculpa das ausências de Fabíola) e dobrarem a vigilância sobre suas mulheres. O mais trágico,foi a certeza do marído, quanto a unanimidade da aprovação social do massacre que promoveu.

  De fato, o maior erro de Fabíola e de seu marido, foi terem ignorado as desavenças, a indiferença e o teatro doméstico, tantas vezes repetidos em milhões de lares, do casamento como álibi para salvaguardar o desejo por uma vida sexualmente livre, ativa e fora das amarras do ambiente conjugal.

     Não há nada que impeça, desvie nem faça desaparecer a sexualidade liberada de alguém que a quer assim. Milhares de anos de repressão no mundo jamais mudaram isso. Cabe a cada casal respeitar-se e usando de bom senso, deixar que cada um siga o seu caminho e a sua maneira de viver. "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", disse Caetano. Por isso, "não me venha falar da malícia de toda mulher", porque aquele se sabe dizendo a verdade, pelo menos desconfia que a sua verdade apenas traduz o seu dom de iludir-se e de iludir.

    É preciso que haja entre nós, mais respeito, mais temor a Deus e muito mais humildade e auto-crítica com a coisa dos outros.



VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES

09:22 AM, 26/11/2015 .. 0 comentários .. Link

     As relações sentimentais no país seguem um padrão em que misturam-se sentimentos, interesses, posição social  (a mulher quando se casa parece que venceu alguma coisa, só não se sabe o que),  o direito à maternidade por parte da mulher e a permissão para ter  sua família e  seu lar. Contudo, em termos mais específicos, a mesma mulher que se considera vitoriosa no casamento parece ignorar o fato de que nem todo o homem tem saúde mental e equilíbrio para a convivência doméstica e mesmo sentimental. Muitos não têm qualquer habilidade para estar com o sexo oposto. Ignorantes desse fato, as mulheres se atiram a  uma aventura de intimidade conjugal que, em muitíssimos casos,  terminam em tragédia, com mortes, infelicidade crônica e muuuiiiito gozo, só que mórbido.

     A pergunta que normalmente se faz é por que as mulheres fazem tantas escolhas erradas e por que persistem nelas? Acredito que como o casamento é considerado uma instituição de controle em que o fato da responsabilização dos parceiros parece fazê-los viver com seriedade, possivelmente encorage as mulheres a arriscarem. Pode-se dizer, com certeza, que essa é uma premissa realmente falsa. A responsabilização pode apenas ajudar, mas, de forma alguma, garante o equilibrio de condutas. A maioria dos grandes criminosos no Brasil são pessoas de muita responsabilidade. Porém, isso não os impediu de agirem de forma criminosa.

    É preciso que homens e mulheres apostem menos no romantismo e na conveniência pessoal e também deixem de considerar o par como alguém perfeitamente controlável e, principalmente, valorizem mais sua vida, sua história e seu futuro. Tudo isso pode perecer numa experiência conjugal desastrosa. Como diz o querido Jabor, amor é sorte.



ALGUMAS COISAS SÃO MESMO INÚTEIS

11:47 AM, 15/11/2015 .. 0 comentários .. Link

      O terror da criança dominada por pesadelos que a aniquilam, ensinam, desde muito cedo que o terrificante da morte faz parte das fantasias de todos. Em quase todos, o vazio da falta apavora, o desejo que desejamos no outro confunde e amedronta, porque com ele a angústia é inevitável e sem ele a subjetividade não pode ser. Resta ao falante fazer emergir nas suas narrativas do viver, do sonhar e do fazer, a sua existência.  Certamente, feita de sorte e de cometimentos. Sorte porque no erro do caminho (discurso) e da linguagem, se tem o acerto do desejo sempre  fundado no gozo.

     Sendo assim,  não vale a pena olhar tanto para erros, fracassos, frustrações e deslizes, pois, no meio de tudo isso somos o que somos e fazemos o que fazemos. E não é uma questão de perspectiva, mas de história, porque no persurso de cada caminho, o saber comparece, a força brota do mistério, a direção pode ser encontrada e quem cai também levanta, quem chora também aprende, quem sofre também muda tanta coisa e, sobretudo,  na ignorância de cada um, há tanta coisa interessante. Se alguém "quiserr" a verdade,  não precisará ir tão fundo no que faz e no que vive. A razão é simples: a vida e a morte não têm fundo, nem as paixões, nem os saberes. Nem por isso se cai no abismo, porque não há como sair da ordem social em que cada um tem o seu lugar. Como diz o Raul, "Esse caminho que eu mesmo escolhi, é tão fácil seguir, por não ter onde ir...". Isso porque cada um já tem o seu lugar. A gente segue até certo ponto, ama um tanto, odeia outro tanto, inventa a vida e sofre a morte, cuidando do ser e do estar, ou, não, e, de ação em ação, encontra algum alguma função no mundo. É mais simples do que se pensa. É só não complicar.



A SOLIDÃO COMO MOTIVO

09:15 AM, 8/11/2015 .. 0 comentários .. Link

     Solidão é um estado de alma. Não é o fato de alguém não ter companhia e estar isolado. Uma vêz percebida, a solidão é associada ao mal estar de pessoas e grupos. Nesse contexto, afastar a solidão significa livrar-se da angústia, diminuir a ansiedade, afastar a tristeza e deixar a felicidade mais próxima.

     Por causa da solidão e seus efeitos, as pessoas buscam-se, divertem, namoram, transam, viajam e até se casam. Tudo isso tendo a solidão como motivo. Mas será ela um bom motivo? Pode ser que não.  A solidão que as pessoas rejeitam e combatem substituindo-a por outra experiências é insidiosa, persistente e repetitiva. O esforço deve ser permanentemente desenvolvido, sem descuido ou comodismos, pois, não há  solução definitiva.

     Se uma pessoa inisiste em planejar vida, relações e objetivos existenciais baseada na solidão, terá de viver permanentemente em mudança. Ocorre que as coisas mais importantes do viver exigem certa duração.  Amizades, uniões sentimentais, profissão, relações familiares e outras coisas que exigem permanência. Se as pessoas vivem em constante mudança por causa da solidão terão um estilo de vida muito reativo, sem poder atinar para outros motivos, muito mais densos e fortes para a construção de nossas vidas.

     O melhor a fazer é não reagir demasiadamente à solidão. Ela tem suas virtudes e pode ajudar no enfrentamento das angustias e ansiedades da vida. Enfim, solidão é um fundamento muito pobre para alguém construir sobre ela, sua existência.



DELIRIO DE GRANDEZA

05:13 PM, 1/11/2015 .. 0 comentários .. Link

     Certa vez, numa conversa informal, um amigo com delírios de grandeza auto-referida explicou a razão de trazer no braço um relógio rolex caríssimo. Pareceu adivinhar minha curiosidade em saber de onde vinha a percepção de grandeza atribuída a si. Afirmou que usava o aparelho para atribuir a  si muito valor, pois, não conseguia perceber-se valioso, quer em seu eu, quer nas experiências que vivia, se não recorresse a uma lista de itens que muitos julgassem valiosa. Se uma roupa representasse valor para o imaginário social ele a comprava e vestia, introjetando no eu o valor das roupas. Se uma viagem ao Caribe, Europa, ou a China representasse num certo momento um valor maior, lá estava ele fazendo a tal viagem, revestindo o seu eu do valor imaginário dos lugares por onde ia. Em suma, não tinha recursos psíquicos para atribuir-se valor ( Supereu deficiente?), a não ser por este expediente.

     Falta a pessoas assim a socialização a partir da inserção no laço social, como Lacan o chamou. Isto é, reconhecer seu lugar na sociedade e, a partir dele, tornar-se autônomo, capaz de pensar e agir, amar e produzir, do seu lugar, nomeando e nomeando-se no meio dos seus pares, com identidade e valor reconhecidos.

     E quando amam, precisam que seus amores se submetam aos mesmos rituais de valorização para serem, então, entendidos por eles como pessoas de valor. Contudo, sua desdita é que por mais que adquiram valor, este se dissipa como as nuvens, desaparece como fumaça, porque é puro imaginário, sem nenhuma consistência.



APRENDIZAGEM

02:21 AM, 25/10/2015 .. 0 comentários .. Link

     Frequentemente, tenho ouvido de pessoas que tentam aprender alguma coisa sem muito sucesso que, de fato, aquilo que procuravam aprender, não havia depertado o seu interesse o suficiente para uma motivação eficaz. Outras dizem ainda que lhes falta base ou que não são muito boas no assunto que prretendem entender. Contudo, o que pode estar acontecendendo é o fato de tais pessoas não estarem interessando ao objeto de seu estudo. Ele, o objeto,  não as considerou, não as tomou como sujeitos apetetentes para a enunciação do saber que aponta e apresenta.

     Desse ponto de vista não é difícil entender porque os sujeitos tentam salvar sua posição, mais narcísica do que deveria, afirmando que a aprendizagem não foi motivo suficente para despertar-lhes interesse. Julgam em sua soberba, que o objeto na sua passividade, deve ser melhor apresentado por terceiros cujo interesse é fazer o aprendiz gostar do que está sendo ensinado.

     Contudo, o objeto não é passivo na medida que de fato é o determinante do desejo e de toda a ação que dele advem em termos de saberes e práticas. Se ele permitir pode incluir o aprendiz no seu campo, se, não, nada feito.

     Por isso quem aprende deve pedir licensa e, com humildade, solicitar à sabedoria (objeto) que o aceite e compareça no campo de sua ignorância, para que, de alguma forma, algo em termos de saber aconteça.



O DEPOIMENTO

07:28 PM, 20/10/2015 .. 0 comentários .. Link

      A Operação Lavajato se nute de depoimentos. A cada denúncia os envolvidos dizem que se trata de palavras sem qualquer consistência e destituídas do apoio dos fatos. Enfim, são invencionices dos depoentes. Políticos e empresários ignoram um dado da maior importância para o Brasil e para o mundo: o nosso judiciário evoluiu. A Polícia Federal evoluiu, as tecologias e todo o aparato investigativo progrediu muito.

     Já não existe mais a facilidades que os corruptos tinham de ocultarem ou disfarçarem práticas delituosas sem sequer se incomodar se estavm sendo vistos ou, não. Não é só o Juiz Moro o responsável por essa imensa exposição da malandragem de tanta gente tida como "boa", mas toda uma geração de policiais, juristas e investigadores que fazem a diferença hoje.

     O DEPOIMENTO hoje, vale, como vale!



O NIILISMO

06:09 PM, 12/10/2015 .. 0 comentários .. Link

     É uma expressão que indica a dificuldades que muitas pessoas têm de viver o presente.  Fogem de suas consciências refugiando-se ou no futuro ou, no passado. Então permanecem no que não existe. O passado não existe porque é apenas memória, lembrança do que passou e não volta. Não serve como ponto de partida para nada pois não tem realidade. O já vivido está envolto num véu de resistências, de distorções e de aparências, muito distante do que realmente aconteceu. É como as estrelas das quais só temos um brilho distante e disforme. Não se faz nada com o brilho das estrelas a não ser reconher que vêm de um passado remoto. Assim é o passado e todos os seus acontecimentos. Contudo, ele integra o presente e o orienta na formulação de fantasias e formações sintomáticas.

     O mesmo pode ser dito com respeito ao futuro. Feito de projeções, é composto por ideais advindos de um ideal, tão irreal como o horizonte e tão inexistente como.  Por isso pode-se dizer que quem vive em ambos os lados, nega o dado que realmente importa na construção dos dias -  o presente. Este sim, marcador preciso do instante em que o eu funda sua existência e constrói as suas estratégias de abordar, enfrentar e transformar a realidade, transformando a si simultaneamente, no mesmo ato.

     O niilismo é inerte, imóvel, isolado e impotemte. Para se viver o presente é preciso que o medo alienante se desfaça, que a coragem de ser aconteça e coloque  o sujeito nas dimensões do acaso e do devir, contando com os elementos do saber e da criatividade.

     O niilismo é uma inutilidade, uma total inconsequência. Não vale a pena alimentá-lo minimamente.

 

 

 

 

 

 



COMO AS COISAS VÊM À EXISTÊNCIA

03:42 PM, 3/9/2015 .. 0 comentários .. Link

     Há pessoas que imaginam algo de que precisam e saem à rua para encontrar. Procuram e encontram. Outras não fazem a menor ideia, sabem do que precisam mas não atinam com nada. De repente, encontram. Aquilo de que necessitam aparece, assim, de um canto qualquer. Para as primeiras, as coisas já existiam antes, para as outras,ainda não. 

     Portanto as coisas vêm â existência quando nascem primeiro no mundo das ideias. Uma vez engendradas como representantes ideativos, passam a comparecer no imaginário social como algo que se nomeia, sendo reconhecido  e referido em várias situações. Assim passa a integrar o ambiente das pessoas, participando de seu cotidiano de modo doméstico e previsível. Antes de ser uma idéia e sua representação, as coisas não existem. Integram a categoria geral do ser, potencialmente destinadas à existência.

     Por isso é importante que as pessoas na força de suas fantasias comecem aí, no plano ideativo, a criarem o que precisa existir para que suas vidas sejam produtivas. As pessoas que não fantasiam nem se dão ao trabalho de imaginar nada para si mesmas, ou, para os ouros, são muito pobres. Pobres de espírito.

     Ainda bem que isso é perfeitamente reversível e todos podem trazer a existência aquilo que realmente precisam como gente e como sujeitos de sua história.



DOIS RELÓGIOS

06:31 PM, 26/8/2015 .. 0 comentários .. Link

     O relógio da minha sala não funciona. Deixo lá porque é bonito. Decoração criativa com dourados, tons de bronze, branco e uma indefinida cor quase brilhante em algumas partes. Ele marca, no momento em que escrevo, a mesma hora do meu relógio de pulso. Este, exato pela hora de greenwich e Brasília. Será assim só por alguns segundos. Mais um  pouco e  os ponteiros do que funciona se moverão e o que também é um relógio, não se movendo, porém,  terá hora diferente. O que é melhor?  Quedar num mesmo lugar aparentemente inerte, ou, seguir o tempo dos ponteiros ingleses de Greenwich?

     Há pessoas que parecem perdoar o vento quando andam, de  tão lentos vão. Outros voam como os raios do sol, ligeiros como a luz, ativos como as abelhas.  O relógio que anda, segue uma lei que governa os movimentos.  Segue um princípio rígido, o de seguir o giro da terra em torno de seu próprio eixo: 24 horas. A folhinha, por sua vêz, seguindo a mesma lei,  segue outro princípio: o de acompanhar a terra em torno do sol por 365 dias. Tais voltas sempre se repetem. O tempo é propiamente o que se repete nos intervalos do que se espera.

     Saber esperar, poder esperar e preparar na espera a vida que se quer viver é o que dá sentido ao tempo que passa. A isso se chama existência.



SOBRE ENDEREÇAMENTOS

11:01 AM, 25/8/2015 .. 0 comentários .. Link

     Existe uma confusão generalizada sobre a questão dos endereçamentos.  O pensamento e a fala que o explicita de forma mais ou menos distorcida é o que confere identidade às pessoas. Contudo, para que esta identidade não seja uma mera cópia do que se pretende acrescentar à identidade, o falante, a partir de sua fantasia, elabora uma imagem de quem ou de que pretende identificar-se , a mais interessante possível, e endereça ao outro para que haja, no processo de resposta, confirmação ou, desconfirmação da identidade pretendida.

     Isso pode gerar um grande problema, pois, esse outro a quem se endereça a proposta de identificação pode recusar-se a acolhê-la. Pode, inclusive, tripudiar, provocando a falência do processo. Se isso acontece com frequência, aquele que endereça pode tornar-se muito vulnerável à opinião dos outros e viver um enorme sofrimento psíquico a partir das deconfrmações constantes.

     É preciso endereçar ao outro as identidades que se pretende acrescentar ao imaginário do eu, o problema, porém, é saber sair do convívio mórbido de quem vive desconfirmando os endereçamentos que lhes são enviados.



SOBRE O AGIR

10:57 AM, 25/8/2015 .. 0 comentários .. Link

Muitas pessoas conseguem discernir em suas dificuldades, as causas diretas, as consequências possíveis, os atores envolvidos e até quando começou. Contudo, quando se trata de fazer algo para que haja mudanças, não conseguem o mínimo de ação.
          Ocorre que qualquer ação é, necessariamente, algo complexo. Para ser realizada, é preciso que o sistema efetor ( executor), seja preparado. O que o prepara é uma programação que envolve planejamento, formulação de estratégias e execução a partir de uma visão ampla do cenário, dos atores e do contexto da situação a ser modificada.

          É interessante saber sobre os fatores subjetivos (internos) e objetivos (externos) existentes. Essa percepção só será possível quando houver um objetivo formulado, ainda que de maneira rudimentar. É o objetivo que estimula o planejamento e a formulação de estratégias.

Se tudo funcionar bem, o objetivo será alcançado. Contudo, se as barreiras, quer, internas, quer, externas, interferirem de modo importante, nenhum planejamento funcionará.

Os medos são os grandes responsáveis pelas inibições, pelos excessos de ansiedade e angústias.

As incertezas provocam desconfianças e desconfirmações que detonam a atitude de foco nos objetivos. Além disso, externamente, certos elementos não vão cooperar muito: dinheiro ( tudo tem um preço), má vontade das pessoas e os meios certos para se conseguir o necessário para prosseguir.
           É certo que a mente age através dos processos de problematização, assim que os sentidos comparecem e as ações começam o seu movimento.
Contudo, nada parece ser o que é. A cada passo se esbarra na incerteza,  nos medos e na inadequação dos meios. A problematização tem lugar a cada vez que o processo é interrompido ou demora mais que o necessário. Contudo, quanto mais o pensamento prossegue, mais a realidade se configura e se aproxima dos objetivos.
           Nisso tudo há que se investir esforço, tempo, raciocínio, grana e até preocupações intensas. As ações exigem esse processo – inevitável e necessário. Aquele que pagar o preço desenvolverá estratégias e meios, cada vez mais aperfeiçoados para agir em busca de seus objetivos.

           A questão que chama a atenção é, como se disse no início, a dificuldade em se agir. Isso pode se dar, principalmente quando estão presentes na consciência experiências de fracasso e impotência. Ressentimento e esvaziamento do tempo existencial, retiram a confiança do eu na ação e o sujeito hesita. Se a hesitação prossegue, logo se transformará em certeza antecipada de fracasso, levando o sujeito a desistir para evitar a dor.
              Por isso, a orientação de Lacan parece muito interessante: o excesso de experiências improdutivas de determinação impedem experiências produtivas de indeterminação

 



VONTADE

06:40 AM, 11/8/2015 .. 0 comentários .. Link

      Diz respeito  à percepção de uma volição. Um querer que num certo momento desperta o sujeito para algo que queira fazer ou, viver, ou, apenas experimentar. Vontade súbita de comer uma iguaria, de falar com alguém, de viajar para algum lugar, de vestir algo diferente. Ou, então, vontade antiga de ter um xodó, um bicho de estimação, um carro ou uma casa na praia.

     O interessante é que os quereres, como diz mestre Caetano, podem ser muito contraditórios, como afirma em sua música – “Onde queres revólver, sou coqueiro/ E onde queres dinheiro, sou paixão/ Onde queres descanso, sou desejo/ E onde sou só desejo, queres não...”  Isto é, dificilmente dois sujeitos querem a mesma coisa.

     Contudo, há uma contradição mais complicada. É aquela em que o sujeito se trai porque o desejo aponta outra situação.  Exemplo disso é o fato de alguém explicitar a vontade de dedicar-se a um projeto que confessa ser muito importante. Por exemplo,  dedicar-se à leitura de certos temas, julgando que será beneficiado com o saber que venha a desenvolver.  Ou, então,  encontrar uma pessoa interessante com quem possa viver um romance que tire a rotina monótona dos seus dias. Porém, suas ações cessam de não se inscreverem no campo de outras coisas bem diferentes. Ao invés de lerem os livros pretendidos envolvem-se em programas com amigos que lhe tiram todo o tempo.  Ou, então, depois de conseguir um par, passa a fugir dele atirando-se a atividades que impossibilitam a satisfação da propalada vontade de namorar. Afinal, de que valem os quereres? Razão de gozo em condutas contraditórias? Vá saber.

     A coisa muda, porém, quando o desejo pinta com toda a sua força e, sem pedir licença, faz entrada como razão de um gozo maior, melhor, mais forte que a morte. Realizá-lo passa a ser mais do que uma questão de vontade,  transforma-se num privilégio. As vezes o caminho se torna cheio de tropeços, ou, nada nem ninguém, entende. Mas o sujeito que o sabe sem saber que sabe, o carrega como verdade preciosa, digna de sua luta e de sua fé.



MUDANÇA

07:53 PM, 9/8/2015 .. 0 comentários .. Link

Palavra muito usada e muito imprecisa. Afinal o que é mudar? Quem muda? O que muda? Ela pode exprimir uma inquietação com o estado atual, uma insatisfação com situações e circunstâncias vividas ou, uma reação ao cansaço que a mesmice provoca. Normalmente encerra enganos, equívocos, intenções ocultas, principalmente quando usada por manipuladores de conduta e opinião.

De fato,  não existe no campo da fala a tal da mudança. Há, isto sim, movimento, transformações, invenções do novo e reinvenções do que já existe, aprendizagens, saberes que se instituem no acaso, fora da ordem, no campo, inclusive, da desinserção.

Isso não é mudar. É, porém,  viver o acontecimento, a emergência daquilo que não se espera, a irrupção na linha inconsútil do tempo de tudo o que surpreende e faz do sujeito, ao mesmo tempo, agente e testemunha do que lhe chega sem lhe dizer.

Podem,  alguns, argumentar: mas o resultado final não é mudança?! O máximo que se pode dizer é que aconteceu algo. Afirmar que é uma mudança é impreciso e por demais  metafísico.

Se alguém deseja mudar deve antes questionar (por questão) esse desejo. O que virá depois disso ninguém sabe. O que se pode fazer é considerar que, para o perdido, qualquer caminho vale. Só não vale planejar o que se quer obter e chamar isso de mudança.



O BEIJO

11:15 PM, 2/8/2015 .. 0 comentários .. Link

     O quadro “O Beijo” de Gustave Klimt, foi pintado em 1907 na Áustria, no auge de sua carreira. Por esse tempo, a sociedade puritana do império austro-húgaro, vivia o máximo de suas dificuldades materiais e morais. Muitos haviam perdido suas casas e os meios de sobrevivência, a prostituição era muito comum e, via de regra, a eroticidade  comparecia em todos os seguimentos de modo disfarçado, porém, muito intensa e presente.

      O Próprio Klimt era assim. Apesar de bem formado, do reconhecimento razoável, naquele tempo, do seu trabalho, vivia cercado de mulheres disponíveis tanto como modelos quanto amantes. Ao morrer deixou uma quantidade considerável de filhos.

      A mulher do referido quadro, pode ser sua amante de sempre, apesar das outras.  O manto belíssimo do amante, as cores douradas que ressaltam as formas dela, as flores que profusamente tornam o quadro uma festa de cores para quem o vê, contudo, não conseguem esconder um fato: Emilly não somente recusa o beijo, supostamente dirigido à sua boca, mas, recusa-se a uma entrega que a faria, de fato, participante do beijo. Então, não é um beijo. Tão somente se trata de uma tentativa.

      A questão é que faltava a Klimt sabedoria para viver seu amor. Perguntava sempre por que não conseguia ser constante. A resposta óbvia que insistia em não aceitar era o fato de que realmente não fazia por onde. Julgava que sua simpatia, condição e muito tesão resolveria tudo.

     A verdade de Klimt é que, de fato, ele nunca beijou ninguém.



POR DO SOL EM MARTE

12:19 PM, 25/7/2015 .. 0 comentários .. Link

     O sol, na sua alvorada e ocaso, é a principal referência para a invenção do tempo. Porque se repete, porque separa dia e noite, luz e escuridão, porque marca estações, e, juntamente com a lua as marés, porque funda o sistema heliocêntrico para a percepção de calor e frio, entendidos como distâncias ( perto e longe) da terra em relação ao astro-rei. Não existe tempo em Marte. É uma invenção nossa, que acabou se tornando no tecido de nossas vidas, permeando a existência como fenômeno que transforma permanentemente a vida vivida debaixo do sol. O tempo pode ser bom, pode ser mau. Pode ser tudo o que acontece entre o berço e a sepultura. Pode ser, inclusive, oportunidade de fazer história, como afirmou Neruda em seu "Confesso que Vivi", por sinal, lindo. Sempre é tempo de viver e de morrer. O fruir do tempo, sua construção e movimento é algo estritamente pessoal, intransferível e que exige a implicação dos sujeitos nos eventos de sua história. Não há lugar para irresponsabilidades no tempo. Condenado a ser moral, o homem terá sempre que pensar na ética do viver o seu tempo de forma consequente e responsável.

https://www.youtube.com/watch?v=iGB2h4OBFl4

 



O QUE É ISSO COMPANHEIRO?

08:37 AM, 25/7/2015 .. 0 comentários .. Link

Texto perfeito do Celso Ming a partir de uma artigo do Gabeira no Estadão.

O que é isso, companheiro?

Celso Ming

13 abril 2015 | 21:00

Governo das esquerdas que distribuiu renda e o que conseguiu foi a estagnação da renda nacional por meio de uma sucessão de pibinhos, que agora desembocam na retração da atividade econômica

Em artigo publicado no Estadão do dia 10, o ex-guerrilheiro e hoje simplesmente jornalista Fernando Gabeira faz importante advertência à esquerda brasileira, que confundiu tudo quando arrebatou o governo ao longo das administrações Lula e Dilma.

Ele conclui seu texto com uma afirmação síntese: “Não há espaço para uma esquerda monocrática que confunde suas ideias com o interesse nacional, que julga aproximar-se do socialismo, mas avança para o colapso econômico”. É outro jeito de convidar as esquerdas para a autocrítica, feita com tanta relutância quando feita ou, para tantos efeitos, ignorada.

As confusões da administração de esquerda ao longo destes três mandatos são enormes e devastadoras.

     Tentaram adotar uma política anticíclica, mas produziram um keynesianismo tosco, sem equilíbrio fiscal – como advertiu na semana passada o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger. A consequência da que foi chamada Nova Matriz Macroeconômica foram desastres em cascata.

    Pretenderam aumentar o emprego com instrumentos de política econômica que desembocaram no esvaziamento sistemático da indústria. Para compensar a falta de competitividade produzida pelo desequilíbrio macroeconômico, inventaram uma política industrial voluntarista e insustentável. Para supostamente reduzir a carga tributária da indústria, baixaram a desoneração dos encargos trabalhistas que o ministro da Fazenda Joaquim Levy chamou de “grosseira” e que aumentou em R$ 20 bilhões as despesas anuais do Tesouro.

     A ligação direta entre Tesouro e BNDES sugou R$ 400 bilhões, uma dinheirama cuja destinação e condições permanecem nebulosas. Trata-se de um orçamento paralelo que foge ao controle tanto do Congresso quanto do Tribunal de Contas da União.

    Em nome do princípio da economicidade tarifária (preço mais baixo ao consumidor), o governo Dilma desestruturou o setor de energia elétrica, com resultados que obrigaram agora a descarregar tarifaços ao consumidor.

     Também para evitar o galope da inflação, as tarifas dos combustíveis permaneceram represadas desde 2010. Com isso, o caixa da Petrobrás foi sangrado em R$ 20 bilhões, prática predatória que asfixiou seu investimento.

     A política fiscal da segunda administração Lula e da primeira administração Dilma baseou-se na expansão do consumo sem contrapartida de investimentos e de aumento da produção. Para fingir austeridade, os administradores recorreram a truques contábeis, pedaladas e ocultamento de esqueletos fiscais.

    O resultado foi a disparada da inflação. Para evitar estouro ainda maior dos preços, a equipe econômica do governo represou o câmbio e achatou cerca de 25% dos preços da cesta de consumo. Agora a nova administração foi obrigada a conceder reajustes realistas de preços que puxaram a inflação para perto dos 9% em 12 meses.

    Em vez de concentrar esforços e recursos para melhorar as condições de vida da sociedade, com melhora da educação, da saúde e dos transportes, o governo das esquerdas optou por propiciar o paraíso para a classe operária com subsídios a compras de bens de consumo, como veículos e aparelhos domésticos.

    Alardearam que distribuiriam renda e o que conseguiram foi a estagnação da renda nacional por meio de uma sucessão de pibinhos, que agora desembocam na retração da atividade econômica.

Afinal, o que é isso, companheiro?



TEMPO

07:17 PM, 28/6/2015 .. 0 comentários .. Link

     O tempo é algo inventado. É o tecido de nossas vidas, segundo afirmação do professor Cândido, conforme testemunhou  Maria Rita Kehl. Se é tecido é tecida, retecida nas vivências e experiências de nossos dias. Não é contingência que se nos impõe a partir do Outro, mas invenção de cada um. Se a natureza se repete a cada por e nascer do sol, o falante se repete e não se repete contando o tempo. Por isso pode sair dele, voltar, inventando e reiventado suas experiências, podendo modificá-las no percurso que faz.

     O tempo inventado produz memória, produz história, produz saber no discurso doe quem sai do curso da natureza e inventa, além do tempo, a vida.



CONCEITO E PREGNÂNCIA

04:46 PM, 23/6/2015 .. 0 comentários .. Link

     O conceito é algo muito caro  à linguística e à psicanálise. Através dele não somente noções, pensamentos e ações se tornam possíveis, como a estruturação da convivência social e suas várias organizações são ensejadas. Há conceitos que são fortemente pregnantes. Por exemplo, aqueles que desqualificam sujeitos, tornando estes indesejáveis às comunidades porque representam desvalor e ameaça.

     Aplica-se essa afirmação ao caso dos adolescentes usuários de substâncias psicoativas, por exemplo. O país e especialmente os EUA,  dedicaram os últimos 40 anos à demonização das drogas, dando-lhes conceitos não só irreais, como provocando um imaginário absolutamente trágico. Tal conceito tornava os usuários de drogas, pessoas monstruosas, ameaçadoras, impróprias para o convívio social. Houve, em muitas ocasiões, um acordo tácito entre autoridades e populações para que as pessoas envolvidas com a liberdade de costumes e com as drogas, fossem mortas, ainda que com violência (Veja o filme Sem Destino com o Peter Fonda).

   O resultado disso é que o conceito usuário de droga = demônio é o principal responável pelo número absurdo de mortes de adolescentes e jovens sem que ninguém lamente. É preciso que o conceito seja desconstruídio e, ao invés, um outro que provoque ações de cuidado e proteção tenha lugar. A academia pode ajudar nisso, os agentes sociais que trabalham com pessoas em desenvolvimento também, além daqueles que construiram o tal conceito que mata.

   " Voce que inventou o pecado equeceu-se se inventar o perdão. Apesar de voce amanhã há de ser outro dia."

( Chico Buarque)



ESCOLHAS

03:38 PM, 7/6/2015 .. 0 comentários .. Link

Texto Fabio Marton

No livro A Escolha de Sofia, de William Styron, que virou filme estrelado por Meryl Streep, uma prisioneira polonesa em Auschwitz recebe um “presente” dos nazistas: ela pode escolher, entre o filho e a filha, qual será executado e qual deverá ser poupado. Escolhe salvar o menino, que é mais forte e tem mais chances na vida, mas nunca mais tem notícias dele. Atormentada com a decisão, Sofia acaba se matando anos depois.

Dilemas morais, como a escolha de Sofia, são situações nas quais nenhuma solução é satisfatória. São encruzilhadas que desafiam todos que tentam criar regras para decidir o que é certo e o que é errado, de juristas a filósofos que estudam a moral.

Cada vez que um filósofo monta um sistema de conduta, procura algo que responda a todas as situações possíveis. O filósofo inglês John Locke (1632-1704), por exemplo, definiu o bem pela não-agressão, aquela idéia de que “minha liberdade começa onde termina a sua”. Já Ros­seau (1712-1778) considerava o certo a vontade geral, a decisão da maioria.

Agora os dilemas morais estão virando objeto de estudo de cientistas. E, para alguns deles, talvez os filósofos tenham trabalhado em vão ao se esforçar tanto para montar teorias morais. É que, segundo novas pesquisas, raramente usamos a razão para decidir se devemos tomar uma atitude ou não. Analisando o cérebro de pessoas enquanto elas pensavam sobre dilemas, os pesquisadores perceberam que muitas vezes decidimos por facilidade, empatia ou mesmo nojo de alguma atitude. Duvida? A seguir, faça o teste com você mesmo, respondendo a 5 dilemas morais clássicos.

O trem descontrolado

Um trem vai atingir 5 pessoas que trabalham desprevenidas sobre a linha. Mas você tem a chance de evitar a tragédia acionando uma alavanca que leva o trem para outra linha, onde ele atingirá apenas uma pessoa. Você mudaria o trajeto, salvando as 5 e matando 1?

( ) Mudaria

( ) Não mudaria

Esse dilema moral foi apresentado a voluntários pelo filósofo e psicólogo evolutivo Joshua Greene, da Universidade Harvard. “É aceitável mudar o trem e salvar 5 pessoas ao custo de uma? A maioria das pessoas diz que sim”, afirma Greene em um de seus artigos. De fato, numa pesquisa feita pela revista Time, 97% dos leitores salvariam os 5. Fazer isso significa agir conforme o utilitarismo – a doutrina criada pelo filósofo inglês John Stuart Mill, no século 19. Para ele, a moral está na conseqüência: a atitude mais correta é a que resulta na maior felicidade para o máximo de pessoas. Mas há um problema. A ética de escolher o mal menor tem um lado perigoso – basta multiplicá-la por 1 milhão. Você mataria 1 milhão de pessoas para salvar 5 milhões? Uma decisão assim sustentou regimes totalitários do século 20 que desgraçaram, em nome da maioria, uma minoria tão inocente quanto o homem sozinho no trilho. Além disso, o ato de matar 1 para salvar 5 é o oposto do espírito dos direitos humanos, segundo o qual cada vida tem um valor inestimável em si – e não nos cabe usar valores racionais ao lidar com esse tema.

O trem descontrolado (2)

Imagine a mesma situação anterior: um trem em disparada irá atingir 5 trabalhadores desprevenidos nos trilhos. Agora, porém, há uma linha só. O trem pode ser parado por algum objeto pesado jogado em sua frente. Um homem com uma mochila muito grande está ao lado da ferrovia. Se você empurrá-lo para a linha, o trem vai parar, salvando as 5 pessoas, mas liquidando uma. Você empurraria o homem da mochila para a linha?

( ) Empurraria

( ) Não empurraria

Avaliando pela lógica pura, esse dilema não tem diferença em relação ao anterior. Continua sendo uma questão de trocar 1 indivíduo por 5. Apesar disso, a maioria das pessoas (75% nos estudos de Joshua Greene, 60% no teste da Time) não empurraria o homem. A equipe de Greene descobriu que, enquanto usamos áreas cerebrais relacionadas à “alta cognição”, isto é, ao pensamento profundo, para resolver o dilema anterior, este aqui provoca reações emocionais, mesmo nos que empurrariam o homem para os trilhos. Uma versão mais bizarra desse dilema propõe uma catapulta para jogar o homem pesado nos trilhos – e, surpresa, a maioria das pessoas volta a querer matar 1 para salvar 5. Conclusão: estamos dispostos a matar com máquinas, mas não mataríamos com as mãos.

Para Greene, a diferença nas respostas aos dois dilemas pode ser explicada pela seleção natural. Durante milhares de anos da nossa evolução, os seres humanos que matavam outros friamente atraíam violência para si próprios: eram logo mortos pelo grupo, gerando menos descendentes. Já aqueles que conseguiam se segurar conquistavam amigos e proteção, transmitindo seus genes para o futuro. Assim, ao longo dos milênios, criamos instintos sociais que nos refreiam na hora de matar alguém.

Acontece que, na maior parte do tempo da nossa evolução, vivemos em cavernas e com lanças na mão, e não operando máquinas, botões ou alavancas. Isso faz com que nossos instintos sociais não relacionem o ato de apertar um botão ou puxar uma alavanca com o de jogar alguém para a morte – é por esse motivo que, para Joshua Greene, tanta gente mudaria a alavanca na situação anterior, mas não executaria o homem neste segundo dilema. “Os instintos sociais refletem o ambiente nos quais eles evoluíram, não o ambiente moderno”, afirma o cientista.

Ele dá outro exemplo. Achamos um absurdo não prestar socorro a alguém que sofreu um acidente na estrada, mas nos esquecemos rapidinho que milhares de pessoas morrem de fome na África. Para Greene, o motivo dessa disparidade também está nos instintos. “Nossos ancestrais não evoluíram num ambiente em que poderiam salvar vidas do outro lado do mundo. Da forma como nosso cérebro é construído, pessoas próximas ativam nosso botão emocional, enquanto as distantes desaparecem na mente.”

Para Greene, a diferença de atitudes mostra que os filósofos que lidam com a moral devem levar mais em conta a natureza do homem – não para agirmos conforme a natureza, mas para superá-la. Tendo consciência de que nossos instintos nos tornam capazes de matar friamente por meio de uma alavanca ou de ignorar genocídios distantes, temos mais poder para decidir o que é ou não correto.

Totem e tabu

No seu país, a tortura de prisioneiros de guerra é proibida. Você é tenente do Exército e recebe um prisioneiro recém-capturado que grita: “Alguns de vocês morrerão às 21h35”. Suspeita-se que ele sabe de um ataque terrorista a uma boate. Para saber mais e salvar civis, você o torturaria?

( ) Torturaria

( ) Não torturaria

Recentemente, Israel e os EUA foram duramente criticados pela prática de tortura de terroristas árabes em prisões e pelas tentativas de legalizá-la em forma de “pressão psicológica” ou “pressão física moderada”. Na defesa, os países usaram dilemas como esse. Se você achar que o correto é torturar o prisioneiro, vai legitimar carceragens sangrentas. Por outro lado, caso se recusasse a torturá-lo, poderá deixar inocentes morrer.

Essa situação também se parece com as anteriores – pela razão pura, trata-se de salvar o maior número de vidas. Mas por que, então, é tão difícil tomar a decisão de torturar o homem? Além do instinto básico de não-agressão apontado pelo cientista Joshua Greene, somos movidos por outra emoção primitiva: o nojo. É isso aí, o mesmo nojo que faz você ter uma ânsia de vômito ao olhar um esgoto. “Acreditamos que a aversão moral é nojo mesmo, e não apenas uma metáfora”, diz o psicólogo Jonathan Haidt, da Universidade da Virgínia. Em uma de suas pesquisas, Haidt mostrou vídeos de neonazistas a seus voluntários, monitorando a atividade cerebral deles. Concluiu que sentiam nojo, e não uma reprovação racional. É por isso que, em casos que provocam asco, como a tortura, costumamos agir conforme o absolutismo moral: as regras não devem ser transgredidas nem para salvar inocentes. Ainda mais se lembrarmos que os países que querem legalizar o método geralmente se valem de dilemas como esse para situações mais leves, em que a tortura não vai resultar em vidas salvas.

Os limites da promessa

Um amigo quer lhe contar um segredo e pede que você prometa não contar a ninguém. Você dá sua palavra. Ele conta que atropelou um pedestre e, por isso, vai se refugiar na casa de uma prima. Quando a polícia o procura querendo saber do amigo, o que você faz?

( ) Conta à polícia

( ) Não conta à polícia

O antropólogo holandês Fonz Trompenaars realizou pesquisas em diversos países com dilemas como esse. O mais interessante é que as respostas variaram de acordo com o povo. A maioria dos russos acusaria o amigo na lata. Outros mentiriam para protegê-lo, dando dicas ambíguas à polícia, como os americanos. Já os brasileiros inventariam histórias malucas para dizer que a culpa não era do amigo, mas do pedestre, que era um suicida.

Os gregos antigos já tinham consciência de que cada cultura tem noções diferentes sobre o que é certo ou errado: diziam que havia tantas morais quanto povos no mundo. A princípio, saber que a moral muda de acordo com a cultura é importante para não julgarmos costumes de um povo como se fossem os nossos, descobrindo suas razões particulares. Foi o que propôs o antropólogo Franz Boas (1858-1942), considerado o pai do relativismo cultural – a idéia de que nenhuma cultura é melhor que outra. Mas, quando duas culturas diferentes se chocam, surgem dilemas morais ainda mais difíceis – como o da página seguinte.

Choque cultural

Você é um funcionário da Funai, trabalhando na Amazônia sob ordem expressa de jamais intervir na cultura indígena. Passeando perto de uma clareira, nota que ianomâmis estão envenenando o bebê de uma índia, que está aos prantos. Você impediria a morte do bebê?

( ) Impediria

( ) Não impediria

No começo de abril, a Folha de S.Paulo contou a história do índio Mayutá, de 2 anos, que nasceu de uma gravidez de gêmeos. Como os índios camaiurás acreditam que gêmeos trazem maldição, Mayutá deveria ser envenenado.O irmão dele já havia sido assassinado quando o pai interveio. Com ajuda da ong Atini, que tenta acabar com o infanticídio entre os índios brasileiros, o pai retirou a criança da tribo.

A ong foi formada pelos pais adotivos da ianomâmi Hakani, que viveu um caso parecido em 1995. Depois que Hakani nasceu com hipotireoidismo, seus pais receberam do conselho da tribo a ordem de envenená-la. Mas acabaram tomando o veneno eles mesmos. O irmão e o avô foram encarregados de levar a tarefa adiante e não conseguiram – o avô também se suicidou. Hakani, abandonada, desnutrida e quase morta, acabou adotada por um casal de funcionários da Funai. Um antropólogo do ministério público tentou barrar a adoção, dizendo que era uma agressão à cultura ianomâmi. E aí, o que vale mais: a vida humana ou o respeito às tradições de um povo? Se você acha que o certo é deixar a cultura acontecer, é um relativista cultural. Se considera o valor da vida maior que o das culturas, é um absolutista moral, como o papa Bento 16.

Talvez a solução do dilema esteja na hesitação dos pais. Ela mostra que o infanticídio não é um consenso entre os índios. Ou seja, o terror emocional diante de matar o próprio filho existe mesmo em culturas que admitem matar suas crianças. Isso converge com a tese do psicólogo evolutivo Steven Pinker: assim como qualquer língua do mundo diferencia entre verbo e objeto, a moral também tem suas regras universais, que cada cultura trata de forma diferente. Segundo a teoria da “gramática universal”, de Noam Chomski, temos uma capacidade de nascença para falar, e o que prova isso são as semelhanças de sintaxe entre todas as línguas do mundo. Num artigo para o jornal New York Times, Pinker paradiou a tese de Chomski: “Nascemos com uma gramática moral que nos permite analisar as ações humanas mesmo que com pouca consciência disso”. Mas, como mostram os dilemas morais, nem sempre é fácil fazer essa análise.



 



AMOR E ÓDIO NAS RELAÇÕES SENTIMENTAIS

04:30 AM, 22/5/2015 .. 0 comentários .. Link

      Os falantes somos seres afetivos:  amamos e odiamos ao mesmo tempo.  O afeto é  algo que temos desde o nascer.  Como disse certa vez Lacan: nasce o homem e o omelete.  Por isso mesmo  ele comparece no nosso desenvolvimento vida afora, influenciando com suas intensidades  cada passo do caminho vivido.  Por isso se chama afeto, pois, nos afeta desde sempre, mesmo antes de nascermos, seja pelo lugar que nos prepara na linguagem, por exemplo, o Davi que nem nasceu ainda mas já se sabe que é meu neto,  filho de meu filho e de minha nora e que tem ascendência judia seja pelo fato da maternagem.

     Pois bem,  sabemos que os afetos cooperam fundamentalmente para a construção do laço social. Sem ele não há como.  As relações que envolvem o afeto são complexas, pouco acessíveis  às inteligibilidades, contraditórias e livres. Quem segura?  Um fenômeno curioso é que acontecem  fundidos -  amor e ódio,  porque o afeto não separa  o que é de seu campo. Por isso é impossível para quem se relaciona, por exemplo,  com os outros, com  tubos de ensaio, com instrumentos cirúrgicos ou, com matéria burocrática,   a tal neutralidade.

    Para os chamados pares sentimentais, a mistura de amor e ódio é forte. Lacan a chamava de amódio, dando-lhes certa unidade.  Com isso a confusão é mesmo grande:  as pessoas se assustam com suas reações de ódio diante do par amoroso. Porém, não há como ser diferente, quem ama odeia e vice-versa.

    A questão que “pega”, muitas vezes, é que o ódio vai longe demais.  O gozo não cessa em intensidades, atitudes e gestos  reviram a alma, o laço afetivo e até a história dos atores sentimentais queda abalada.  Outras vezes, é o amor que nos seus excessos exige, possui, aprisiona e sufoca o outro do par. Tudo que era bonito agora está irreconhecível.  Quando, depois de muito sofrimento,  tudo acaba, (porque o afeto tem a mania de migrar através da longa cadeia de objetos que o incita e exceta),  acontece o de sempre:  “meu mundo caiu.”  

     Para aqueles que cuidam dessas coisas e sabem, de uma forma ou, de outra, que as intensidades sentimentais  não devem  estacionar de modo mais -  ou -  menos permanente na estação sadomasoquista*,  é melhor abordar o seu sofrimento por outra borda que não essa, tão cruel em suas consequências.

     A psicanálise é, sobretudo,   voltada par as questões afetivas, tendo no amor transferencial um dos seus pontos mais altos.

 

*Relação sadomasoquista é aquela em que a dor sádica e o sofrimento masoquista acontecem de modo a determinar ações impositivas de dor e sofrimento reciprocas.



O FRACASSO DO CERTO E DO ERRADO

11:12 PM, 21/5/2015 .. 0 comentários .. Link

     Nas sociedades puramente patriarcais, as coisas certas, as situações certas, as palavras certas, só o eram devido à sua origem. O que viesse dos patriarcas estava certo.  Muito antes, na Grécia antiga, tudo o  que era certo e bom, vinha dos deuses.  Os judeus também pensavam assim,  quando atribuíam à Javé, no Alto, as coisas confiáveis.

     Portanto, garantir a correção de alguma palavra ou atitude, dependia de como isso seria envolvido pela divindade, antes, e pela autoridade terrena nos tempos posteriores.

     Na época socrática, o certo e o errado eram uma questão pertencente à ética.  Isto é, as pessoas precisavam resolver seus dilemas  da melhor maneira possível.  Esse “melhor possível” era a ética.  Dizia respeito ao poder da razão para colocar de modo claro possiblidades de resolver e prevenir dilemas indesejáveis.

    Atualmente não se pensa mais em termos do certo e errado.  As fontes faliram.  A ética cedeu lugar à moral (usos e costumes). Nos termos da moral não existe o antigo binômio, existe, sim, a obediência e a transgressão.

    O fato é que não se precisa mais estabelecer o que  é certo ou errado. Melhor pensar em termos de uma estética  que possa envolver os atores que duvidam no processo de busca e de produção de discursos, narrativas e colóquios que posicionem a todos em lugares nos quais possam estabelecer sentidos mais interessantes e apropriados para seus dilemas, ao ponto de construírem conceitos com os quais possam operacionalizar seus dilemas e conflitos.



TER, PODER E NARCISISMO

08:04 AM, 20/5/2015 .. 0 comentários .. Link

     Posse. Há pessoas, não poucas, que têm verdadeira obsessão pelo ter.  Isso lhes produz  certezas que lhes parecem muito importantes:  a percepção de si como proprietárias, e, em consequência disso,   a ideia de poder; o proprietário,  empoderado,  parece desfrutar de um lugar social privilegiado. Além do mais, a luta pela posse que quase sempre envolve disputa com outras pessoas, é fonte de um gozo imenso  e  de um prazer intenso quando satisfeito.

     A questão do ter é, sobretudo,  narcísica. A imagem de quem tem o que muitos também querem,  se engrandece e se valoriza no imaginário social.  Mudam a forma de tratamento, as relações sociais, as possibilidades  de convivência  e produção.  O narcisismo intensamente vivido, desenvolve o apetite pelo auto  engrandecimento, mesmo a qualquer preço.

    O fim dessa história é conhecido de todos: extrema desigualdade social e miséria.  As Riquezas mal distribuídas não têm qualquer solução possível.  O zeitgeista não permite.  Trata-se de   um termo alemão cuja tradução significa espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O  Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo.

    Há que se mudar o espírito de nossa época e a paixão narcísica que ele desperta.



A BRUXA E A VASSOURA

06:02 PM, 10/5/2015 .. 0 comentários .. Link

      NUNCA ENTENDI AS RAZÕES por que as bruxas usavam vassouras como seu meio de transporte. Pelo que sei, as bruxas são entidades dotadas de grande poder, e não há razões para que saiam pelos céus exibindo a sua indigência, usando esse objeto sujo como se fosse um disco voador. Eu preferiria, para seguir as histórias das mil e uma noites, que elas viajassem num tapete persa mágico ou que cavalgassem um macio dragão soltando fogo pelas ventas. Mas todas as coisas, mesmo as mais estranhas, têm as suas razões. Aprendi que é fato comprovado: as bruxas viajavam por terras maravilhosas e desconhecidas tendo uma vassoura no meio das pernas.

      Aconteceu assim. Ia eu numa das minhas caminhadas matutinas pela fazenda Santa Elisa quando me vi diante de uma árvore cheia das flores brancas vulgarmente chamadas trombetas, pendentes dos galhos como pequenos lustres. Essa flor, eu a conheço desde a minha infância. Elas são grandes, lindas e perigosas. Sua brancura esconde poderes alucinógenos incomparáveis. Podem ser letais. Sei de um pesquisador sóbrio que só de manipular essa flor no laboratório ficou doidão. Comentei esse fato com o cientista que me acompanhava, e ele me informou que, segundo informações da internet, há uma curiosa relação entre essa flor, nome científico datura suaveolens, e a lenda das bruxas que voam montadas em vassouras. Quem quiser que entre no Google: +datura+witch.

     As bruxas foram uma invenção da Inquisição. Para justificar a sua queima nas fogueiras pela glória de Deus, diziam que eram adoradoras do demônio. E mais, que até transavam com o dito. Na verdade, as mulheres que a Inquisição amaldiçoou com o nome de bruxas eram sacerdotisas de uma antiqüíssima religião matriarcal anterior ao cristianismo baseada na Terra, no ciclo dos astros, no tempo e nas plantas e animais. Faziam, com freqüência, uso de plantas psicoativas em busca de sabedoria e de experiências com o sagrado. Uma das poções alucinógenas usadas por elas tinha o nome de “ungüento voador”, feita com uma mistura de ervas, uma delas sendo a trombeta ou datura, que era também conhecida como “o suco da alegria”. A datura, misturada com várias outras ervas, era fervida em óleo, provavelmente num caldeirão, e depois bebida num ritual. Aquelas que a tomavam tinham alucinações, delírios e amnésia. A experiência devia ser boa -caso contrário teria sido abandonada. Aconteceu, entretanto, que em decorrência dos seus perigos, as sacerdotisas trataram de inventar uma versão mais suave e segura. Ao invés de beber a poção, imaginaram esfregá-la em mucosas sensíveis. Assim, fazia-se a poção mágica mexendo a beberragem com uma vassourinha de pelos macios. A vassourinha de pelos macios era então usada para umedecer as mucosas das regiões entre as pernas, genitais. Assim, vinham-lhes deliciosas alucinações, e elas voavam, montadas na vassourinha… Está assim explicada a lenda das bruxas montadas nas vassouras. Mas bruxa velha, com nariz adunco e comprido, chapéu preto e pontudo, isso é invenção de padre. Acho que as sacerdotisas podiam até ser muito bonitas…

Rubem Alves



PESSOAS QUE SE REENCONTRAM NA TV

06:48 PM, 9/5/2015 .. 0 comentários .. Link

     No dia 9 de maio de 2015, o apresentador global Luciano Huck, realizou um encontro realmente emocionante: reuniu um filho à sua mãe 43 anos depois de separados pelo padrasto. Ele morando em Boston, Massachusetts, e ela no interior de  São Paulo. A esposa do moço escreveu uma carta e a coisa aconteceu. O que chama a atenção, de fato, é uma parte do relato da mãe: o seu marido tomou duas das tres cianças e saiu dizendo que voltaria. Nunca mais voltou. E tudo ficou por isso mesmo. A questão é: o que leva um homem a fazer isso e uma mulher aceitar?! Normalmente o homem abandono os filhos. Este levou... e dois! 

     No que a hostória seguiu ele se casou novamene e a madrasta aceitou as crianças. Esta nunca procurou, por sua vêz, saber da história. Ouvindo-se o relato de dona Lurdes, este é o nome da mãe, percebe-se que ela é amorosa, apegada aos filhos e com uma rotina de falar frequentemete com o filho Weder, dos EUA, sem contudo jamais tê-lo visto.

     O que se pode dizer é que houve da parte de dona Lurdes uma impotência perfeitamente explicável: excesso de confiança e extrema submissão aos homens. Ausência de malícia e um conformismo.

     Nascida no meio da segunda grande guerra, tendo vivido sua infância num tempo de desordem política e social, de pobreza e muito machismo, de abandono e violência nos anos de chumbo, nunca aprendeu a reinvidicar, a impor-se, a exno sentido de restaurar ercer sua ação num mundo predominantementedominado pela força dos homens.

     A TV age bem no sentido de restaurar relações interrompidas. Contudo, faria melhor se juntamente com as organixzação dos encontros, também levantasse as razões político-sociais que ainda hoje causam a miséria e as violências que se vê em todas as parte do país.

     Quando o foco das ações do poder público for, de fato, as pessoas que vivem, trabalham, procriam-se e morrem no Brasil, teremos finalmente contemplados o contexto, as condições e as causas do que infelicita tantas pessoas como dona Lurdes e seu filho.



AUTORIZAÇÃO INTERNA PARA AGIR

11:03 AM, 3/5/2015 .. 0 comentários .. Link

     A conduta de cada pessoa  não tem o grau de liberdade  que muita gente imagina.  Há um fato psíquico que impede: a autorização interna.  Trata-se de um mecanismo que regula as decisões  impedindo que se faça qualquer coisa.  Estão presentes a censura,  a crítica social, a noção de ridículo e outros impeditivos.  As pessoas percebem o interdito como um tipo de inibição, ou de temor, ou de indecisão, sem saber se devem começar as ações ou, se já começaram, se podem prosseguir sem problemas.

   Os temores têm a ver com uma análise das reações dos outros: a percepção de desconfianças, estranhezas, segundas intenções, um clima meio incerto, coopera para que as pessoas recuem. Contudo, nada disso é realmente importante. O mais comum é o fato das pessoas não se autorizarem às ações que pretendem e, por isso, não prosseguirem.

   Resta, então, àqueles que recuam quando deviam avançar,  que hesitam quando deviam estar firmes,  examinarem as razões de não se autorizarem.  É fato que são de ordem subjetiva, mas, porque se repetem através do tempo, sempre do mesmo modo, há como se refletir sobre contextos, relações, reações e, principalmente,  nas  crenças que tentam justificar as inibições.



VIVER COM DOIS SENHORES

08:23 AM, 2/5/2015 .. 0 comentários .. Link

Há pessoas que desde muito pequenas desenvolvem medo inexplicável do mundo.  Entendem-no como hostil,  como lugar de ameaças e tensões, habitado por pessoas violentas que podem lhes fazer muito mal. 

Por isso apegam-se a seus pais, principalmente às suas mães e constituem o meio familiar como seu lugar seguro, sua base forte para proteção e apoio.

Contudo,  precisando cumprir o caminho normal da vida, isto é, estudar, trabalhar, casar, ter filhos e tudo o mais,  escolhem fazer tudo isso sem  a necessária independência  da família de origem. 

Assim tentam  alcançar seus objetivos  de autonomia,  vivendo  com a família e dependendo dela.  E isso por um motivo muito simples: sua força para viver e lutar vem  da família, surge, desenvolve-se e permanece  no meio dos  seus  pais e irmãos.

O resultado é aquele que os rabinos judeus já diziam na antiguidade:  ninguém pode servir a dois senhores.  A razão é simples: quando o eu se constitui necessita desenvolver-se. Para isso demanda independência psicoemocional, individuação em relação ao grupo de origem, fortalecer-se para o enfrentamento do mundo que é hostil mesmo,  sendo, também, contudo, campo de protagonismos,  de oportunidade de realizações,  de lutas árduas e muitas, muitas vitórias.  O eu que opera essas coisas deve fazê-lo  relacionando-se e referenciando-se aos outros com criatividade, liberdade e independência. Nesse contexto há uma subjetividade e um sujeito que trabalham, distinguem-se e arriscam estratégias mil para constituir identidade própria e um jeito particular de lutar. E isso não é imaginação. É realidade mesmo.

Esse sujeito é uma espécie de senhor: exigente,  independente, autônomo e movido por um psiquismo singular. Se as pessoas constituem esse eu na dependência essencial  de suas famílias de origem, estas serão um outro senhor.  Como não se pode servir a ambos – o eu e o grupo familiar - este último ganha a parada.

Nesse contexto, alguns objetivos serão prejudicados: casamento, criação de filhos, desenvolvimento da profissão e relacionamento com os outros  de modo autônomo. 

A dependência intensa da família de origem não chega a ser um problema, mas certamente é uma condição que deve ser reconhecida, nomeada e assumida diante dos outros. Caso contrário parecerão pessoas que não são o que dizem ser e, principalmente, o que os outros esperam que sejam.

Contudo, o essencial mesmo é viver, amar, aprender e tocar a vida. O resto a gente deixa prá lá.



O HOMEM E SUA SOMBRA

01:53 PM, 1/5/2015 .. 0 comentários .. Link

O Padre Antônio Vieira no sermão Vigésima Segunda após Pentecoste, comenta sobre representações. O contexto é o do Brasil colônia e aqueles que representavam el-rei. A crítica do Jesuíta consistia na desproporção existente nas representações. A autoridade delas, excedia, em muito, a do próprio rei, a quem representavam. Sobre isso Vieira utiliza  uma ilustração deixada por Plínio: na antiguidade, antes do incêdio de Troia, não havia pintura. Aqueles que queriam uma representação de si apelavam para sua sombra. Isto é, colocavam-se entrepostos ao sol para provocarem o surgimento da sombra. Outro vinha e a recortava. Contudo não havia feições, o que impossibilitava o reconhecimento da figura. Então, colocava-se embaixo o nome do dono da figura e pronto! Estava resolvido o problema. O detalhe que incomodava muito, era que a figura, dependendo da posição do astro rei, poderia assumir proporções descomunais, além de deformadas.

Pode-se dizer assim da imagem daqueles que apesar de serem pessoas com habilidades e presença comuns, portam-se tão desproporcionalmente ao que realmente são no seu "eu" autêntico,  que dão a exata impressão de serem sombras de si mesmos. Não brilham, não iluminam, não clareiam nem revelam nada. Apenas projetam sua incosistência vida afora.



DENUNCIADORES

10:19 PM, 30/4/2015 .. 0 comentários .. Link

    Há que se ter medo dos denunciadores da falsidade alheia. Sim, eles sabem dos podres, das mazelas, da má intenção dos outros. Todos são ingênuos, sem malícia, inocentes. Eles, os denunciadores, não. São espertos, foram buscar a verdade e a encontraram. E ela lhes revelou o que já suspeitavam: tudo é um grande engano, engodo...  A maldade está em todo lugar. Que gozo têm ao revelar que ninguém presta. 

    Há que se ter medo deles porque sabem demais sobre coisa alguma. Ignoram que vêem apenas o que suas fantasias lhes permitem. Sabem apenas o que suas resistências lhes ensejam saber. E pensam que a coisa obscura que perceberam, os vultos disformes que vislumbraram, as meio-imagens que sua visão lteral detectou, são coisas claras, definíveis, plenas de sentido. Daí se arvorarem de detentores da verdade sobre tudo o que é oculto e, por isso, imoral.

    Melhor deixá-los com suas visões, suas epifanias apocalípticas. Logo a realidade indefinível lhes apresentará suas incansáveis variações caleidoscópicas.



ACREDITA NA PERUCA

06:36 AM, 26/4/2015 .. 0 comentários .. Link

      O humorista Luiz Fernando Guimarães, aquele do seriado "Os Normais", produz o " Acredita na Peruca", pelo Multishow. A ideia é mostrar às pessoas que as aparências contam muito.  A pena na cabeça do Jumbo, por exemplo,  fez com que voasse de novo, não mais pelo tamanho das orelhas, coisa sua, mas pela pena, coisa não-sua. A peruca seria a sugestão de uma aposta na qual as pessoas acreditassem no que não é seu,  como fator de promoção pessoal e sucesso. É como se a desconfirmação pessoal e a escolha de uma outra imagem garantissem uma vida melhor. 

    O interessante nessa história é que não existe a coisa-sua. Sequer o corpo. Tudo foi tomado pelas representações imaginárias da fala e da linguagem e transformado em dado cultural. Portanto, tudo é peruca. O segredo é, realmente acreditar nela. Voar com as próprias orelhas, tipo Dumbo, é impossível, então, o jeito é acreditar na coisa postiça e começar a voar, seja como for.

 

 

 



SE O AMOR É LINDO, POR QUE INFELICITA?

09:59 PM, 25/4/2015 .. 0 comentários .. Link

      A forma de amor que mais conhecemos é o amor paixão, aquele que eleva o ser amado à categoria da perfeição e exige dele que nunca decepcione nem faça mal. É um tipo de onda que bate no peito do amante e o inunda de um intenso sentimento oceânico, como certa vez Freud mencionou.  Em psicanálise, pode-se dizer que é uma das manifestações do inconsciente na qual o sujeito se perde, no campo de um real  sem qualquer representação possível, aliás, como todo real que mereça consideração. A subjetividade se esvazia de sentidos,  de possibilidades de representação na realidade  e passa a ser completamente absorvida por forças  incontrolaveis e extremamente empobrecedoras.  Não há como amar com esse tipo de amor e ser feliz.  O amor não é lindo, é, pelo contrário, terrível em sua força,  avassalador em seus efeitos e completamente alienante. Socialmente comparece nos mitos do  bem querer,  no romantismo perverso que impõe controle selvagem às almas, nas músicas e outras expressões artísticas que o enaltecem como bom e possível.

      Aliás, o amor romântico pode ser caracterizado por 5 “is”:  insensato,  insano, impositivo, impossível e intransigente. Se  é assim, por que surge no imaginário social como bom? Simples: porque priva a consciência da prova de realidade,  afastando as preocupações com a rotina, com as questões que exigem atenção, pensamento, intervenção racional,  enfrentamento e outras coisas que pesam no dia-a-dia.  É como o álcool, a droga,  o êxtase. Alivia a pessoa da realidade dura do viver.

     A infelicidade desse tipo de amor está na frustração crônica de seus ideais. Aos poucos se perde a esperança nas suas  realizações maravilhosas e, assim, a alma que ama, ou, a falta que ama,  migra para outras pessoas, outras atividades, outras paixões.

      Há saídas? O resto do mundo, quase todo, usa outros recursos para realizar a esperança da união sentimental e do desejo de estar com alguém. Acho que um vamos chegar lá.



UM JEITO SEMPLES DE ANALISAR A VIDA

01:50 PM, 13/4/2015 .. 0 comentários .. Link

     O psiquismo se organiza à maneira do princípio fractal, comentado no artigo anterior. Portanto, cada experiência vivida reproduz a estrutura e a dinâmica de funcionamento dele. É como se tal experiência fosse uma amostra do todo. Suponha que alguém em uma viagem ache tudo triste e sem graça e voltando para casa anuncie a decepção vivida. O que poderia haver nela?  No mínimo, dificuldade de humor, desmotivação, resistência ao novo, dificuldade de auto – percepção, planejamento questionável, fracasso.

     A reação mais esperada é aquela em que a pessoa explique seu fracasso dizendo que o lugar não era o que pensava e que não conseguiu deixá-la motivada. Contudo, na perspectiva fractal, esta experiência é uma amostra de todo o funcionamento psíquico. Onde esse alguém for, faça o que fizer, a sensação será a mesma.

     Se é assim, o mais interessante a ser feito é considerar a experiência como algo a ser pensado. O humor não se desestabiliza da noite para o dia, nem a motivação se perde assim,  a atenção é um pouco mais frágil mas a curiosidade a torna alerta novamente, logo, a coisa não desandou de repente e isso logo será revelado pela repetição do desprazer.

     Se pensada, a experiência  exigirá  uma reformulação do estilo de vida, a começar pela prática de reflexões mais abrangente e mais profundas, mais demoradas e mais  consistentes com o tipo de sofrimento vivido. 

     É óbvio que a questão fractal diz respeito  a uma amostra. Contudo, ela nada tem de diferente em termos de virtudes e falhas que o sistema originário tiver. Uma vez que se pense assim, toda e qualquer experiência será vivida com muita mais atenção e cuidado.

 



UM BOM PRINCÍPIO PARA SE VIVER

10:04 PM, 12/4/2015 .. 0 comentários .. Link

A ser o universo composto, de fato, de uma teia dessa natureza, nada existe logicamente parecido com uma parte. Assim sendo, não somos partes separadas de um todo. Somos um Todo.

O físico Dr. David Bohm, em seu livro “The Implicate Order”, disse que "as leis físicas principais não podem ser descobertas por uma ciência que tenta dividir o mundo em partes". Ele fala numa “ordem envolvida implícita” que existe num estado não manifesto e é o fundamento sobre o qual repousa toda a realidade manifesta. À realidade manifesta ele chama “a ordem desenvolvida explícita”. Ele diz: “Vê-se que as partes estão em conexão imediata, na qual sua relação dinâmica depende, de maneira irredutível, do estado de todo um sistema…  Desse modo, somos levados a uma noção de completitude indivisa, que nega a ideia clássica de que o mundo é analisável em partes que existem separadas e independentes”.

Diz, ainda, Dr. Bohm que "a visão holográfica do universo é uma base avançada para se começar a compreender a ordem envolvida implícita e a ordem desenvolvida explícita. O conceito do holograma sustenta que cada pedaço representa exatamente o todo e pode ser utilizado para reconstruir o holograma inteiro”.

Assim, fugindo da ideia de uma geometria euclidiana para o mundo, pois, nada no mundo se assemelha minimamente a tal geometria, os geômetras pensaram em dois recursos: a estrutura fractal e a sequência fibonacce. Na primeira, o pedaço de uma estrutura se assemelha muito à estrutura originária, como a flor retirada da couve – flor reproduz a estrutura de toda a couve-flor.  E,  na segunda, números sequencias que se somadas de uma certa forma, dão a medida de uma espiral perfeita.

Essas geometrias abandonam o que não pertence à realidade do mundo e inauguram percepções que permitem que o mundo seja compreendido como elementos integrados e cambiantes o tempo todo, gerando novas formas e relações a cada combinação nova que se estabeleça no e para o sistema.

Nesse caso, tem razão o Dr Bohm: não existem partes que possam ser escolhidas, ou selecionadas, ou descartadas, ou adequadas. Existem, sim, elementos que se movimentam, que se combinam e recombinam todo o tempo.

Então, para se obter novas combinações, é preciso abandonar as visões segregacionistas e seletivas que sempre guiaram o pensamento ocidental

 



FUNDO DO POÇO

08:01 AM, 3/3/2015 .. 0 comentários .. Link

     O poço no caso da expressão:  “fundo do poço”,  é uma situação individual ou coletiva em que as pessoas  ficam completamente sem saída,  envolvidas em problemas graves e insolúveis. É como se não houvesse mais como piorar.  Se, porém, pensarmos melhor sobre o real sentido da expressão,   vamos constatar que o fundo do poço é na verdade o início de uma solução. Isto é, as pessoas  param de cair indefinidamente.  Trata-se de um limite, de um ponto de detenção, de um basta.  Cair sempre é que  o problema, aliás, terrível. Se bateu no fundo, o resultado imediato é a estabilização.  Não há mais nada a perder  a não ser a vida. E essa é uma questão séria porque pessoas que desenvolvem depressão pensam na morte como saída.  

    As pessoas caem indefinidamente quando não avaliam corretamente sua real situação, quer em termos de saúde, financeira,  sentimental, conjugal, existencial, ou, social. Estão em plena queda e não se dão conta disso. Sua percepção falha, os sinais de angústia e de medo são desprezados, uma atitude do  tipo “foda-se” se instala e a queda continua. 

   Quando, finalmente,  surge o fundo,  algumas atitudes  aconteceram:  as pessoas de debateram não aceitando inertes a deterioração da situação, começaram a buscar soluções, principalmente junto a seus pares,  passaram a ouvir as críticas que antes desprezavam e de forma corajosa confessaram que estavam no fundo do poço.  De fato, este é o ponto do recomeço, da volta por cima, da reconstrução do que foi destruído.  Se houver apoio, esforço adequado e persistência,  a queda detida se reverterá.



CONVIVÊNCIA

11:07 AM, 13/2/2015 .. 0 comentários .. Link

    Todos sabem que quando pessoas  estão próximas  suas condutas  mudam.  Seja por saberem-se observadas e qualquer coisa que façam assumir um sentido imprevisível, seja porque tenham medo do que os outros representem  em termos de ameaça, ou, ainda, porque pareçam invasivos com sua presença, o certo é que ninguém fica indiferente. Há quem represente papéis, como num teatro, quem se retraia por timidez, quem se divirta e brinque muito, bem à vontade, e quem prefira competir, por tudo e por nada, como num jogo.  Há os de bom gosto e os de mau gosto, os mansos e os muito agressivos, os criativos e os repetitivos, os interessantes e os absolutamente, chatos.  Seja como for,  conviver envolve proximidade,  representações,  sentidos, paciência, medo, comportamentos aprendidos e, sem dúvida, grandes dificuldades para a maioria das  pessoas.

  Apesar das diferenças pessoais os grupos são muito previsíveis, a não ser que resolvam adotar condutas transgressivas. Aí podem fazer coisas surpreendentes como pichar muros e paredes, agitar a rua ou o ambiente de trabalho, cheirar cocaína para sair da real e coisas assim.

   Contudo, conviver é preciso. Então, é melhor, na medida do possível, escolher pessoas interessantes, tirar o melhor proveito possível das situações positivas, evitar conflitos inúteis, não se  envolver com  pessoas e situações problemáticas e, principalmente, cultivar o bom humor.

   Ninguém é obrigado a conviver, se tiver de fazê-lo não é obrigado a gostar. Conviver, na maioria das vezes deve ser um privilégio, um exercício de prazer e uma experiência muito rica de possibilidades de aprendizagem.  Pode e deve ser uma coisa boa para a alma, para a vida e para os outros.

 

 

 



ARACY, A GRANDE COMPANHEIRA DE GUIMARÃES ROSA

04:28 PM, 11/2/2015 .. 0 comentários .. Link

"Para Ara, Aracy, Minha Mulher"


      Com essa dedicatória, começa João Guimarães Rosa a sua obra prima e único romance: "Grande Sertão Veredas".


      Certamente foi Aracy de Carvalho Guimarães Rosa a sua grande inspiradora. Nasceu em 1908 em Rio Negro, Paraná, e faleceu em 2011, em São Paulo, com 102 anos. Aos 26 partiu para a Alemanha nazista, já falando fluentemente o alemão. Com ousadia e muita coragem passou a transportar judeus no porta-malas do seu carro e de outras formas que encontrou. Nessa luta encontrou e uniu-se ao escritor mineiro e embaixador brasileiro em Hamburgo. Ambos trabalharam juntos e livraram da morte mais de uma centena de Judeus. 

    O seu nome e do Rosa, nomeiam uma rua em Jerusalém, na área dedicada aos Justos entre as Nações. Dão também nome a uma praça. Mais que a segunda esposa do autor de Sagarana, Aracy foi tremenda em seu ideal de liberdade e justiça. Sem qualquer medo atirou-se entre as feras do III Reich e salvou a quem pôde, junto ao seu amado. Quando o mineiro morreu, tomou seus últimos escritos, organizou-os com enorme carinho, endereçou-os às filhas com uma observação final: " Esse viver ninguém me tira". Isso porque o diário de Guimarães, escrito em Hamburgo de 1938 a 1942, coloca Aracy como sua grande companheira.

    Vilma, sua filha, encarregada das coisas do pai, rebate o diário e minimiza a presença de Aracy na vida do escritor. Declarou em 2008 à Época que " a mulher mais importante na vida de João Guimarães Rosa era a sua mãe que lhe dera duas filhas." Desde então proíbe qualquer biografia sobre o pai, como afirmou Ruy Castro, certa vez.
    Caco Cieclo faz no festival de Gramado realizado em outubro, passado,  justiça à judia Aracy Carvalho, apresentando o longa; " Esse Viver Ninguém me Tira", exaltando a bravura, o caráter e a extraordinária coragem de Aracy. Ainda bem!

 



O BIG BROTHER E O PADRE MIRIM

08:50 AM, 9/2/2015 .. 0 comentários .. Link

 

     A TV mostrou  em fevereiro, o apoio solidário de um grupo de pessoas em Barretos, São Paulo, a uma criança de 3 anos que está em tratamento de um câncer. Seu sonho é ser papa.  O padre que o assiste, encantado, presenteou o Rafael com uma  batina e  os objetos usados na celebração das missas,  tudo apropriado para a idade do celebrante.  Este, muito sério e aplicado, depois de convidar a vizinhança para a eucaristia,  a realiza com todo o ritual e fé. Mesmo sendo de mentirinha, emociona a todos.  É uma imitação infantil, como a idade permite. Porém, vale como intenção. Não é propriamente missa porque faltam alguns elementos:  a instituição religiosa, a autorização ao celebrante, o reconhecimento social e a integração ao conjunto das instituições  católicas. É uma versão infantil de uma missa. Um simulacro inventado por uma criança de 3 anos.

     Essa situação faz lembrar o Big Brother Brasil. Uma brincadeira de gente grande que tem a mesma inconsistência da missa do Rafael.  A Globo reproduz a brincadeira na qual um grupo de pessoas simula uma situação de convivência social que será regulada por regras, punições e determinações que não pertencem à vida social, propriamente. É um simulacro de convivência que enseja experiências de violência explícita, episódios sadomasoquistas de extrema crueldade e mau gosto, além de transtornos, mental e comportamental,  causados pela privação de liberdade e ameaça permanente de exclusão. Tudo consentido pelos autores, atores e o público de Coliseu que acompanha o desenvolvimento do jogo.  Talvez a pior parte seja aquela em que o Pedro Bial, depois de incitar o público à perversão geral, ainda descreve as condutas dos atores/jogadores num texto em que tenta determinar uma interpretação social e até moral do que foi vivido pelo grupo.  Opinião pessoal que parece basear-se num consenso geral, só que não. É ridículo o que o caro jornalista e apresentador faz.

     Os pontos em comum com a situação da criança de Barretos são muitos: é um simulacro da realidade social,  a plácida tolerância do público, a inautenticidade das regras de convivência, a aparente legitimidade dos rituais, já que todos concordaram em se submeter, a satisfação final de alguns que escaparam da grande exclusão (a rejeição de milhares de pessoas), a mentira de que é uma coisa ( o jogo), quando na verdade é outras ( a vida, os corpos e os valores dos participantes).

     No caso de Barretos vale a intenção caridosa de amigos. Contudo, o desejo da mãe católica sobre a criança terá que ter limites.  No caso do Big Brother, aparentemente não haverá limites, pois, a falta deles é que torna o programa “emocionante” e cruel.



O LEVIATÃ DE THOMAS HOBBES

05:39 PM, 8/2/2015 .. 0 comentários .. Link

Quando Thomas Hobbes em 1651 resolve pensar o "estado de direito" contra o que chamou de "estado de natureza", o faz em meio à guerra civil inglesa. Esse contexto o fez acreditar que no "estado natural" a barbárie e a crueldade das pessoas causariam uma catástrofe social, não havendo chances para a construção coletiva das sociedades ( o homem é lobo do homem). Os indivíduos deveriam abrir mão de sua soberania e poder pessoal, entregando-os a uma terceira instância, o estado, que em troca protegeria a todos, promovendo a lei e a ordem. O estado se fortaleceria imensamente, tornando-se um leviatã (mítico monstro do mar), com força e autoridade suficientes para submeter todos a si. Contudo, isso só valeria se todos concordassem e se o estado legal agisse como representante de todos e de cada um, na proteção das liberdades, dos direitos e dos deveres, dentro de um contrato social. Mesmo contestado, o ponto de vista de Hobbes prevaleceu.
Contudo, como não nos lembrarmos de John Locke quando contestou Hobbes afirmando que seria melhor lutar contra as raposas que devoram a lavoura do que contra os Leões que devoram a todos.
Hoje somos todos devorados por leões. A desproteção e o desamparo estão cada vez mais claramente expostos com os sucessivos escândalos, abalando a própria governabilidade. O Leviatã de Hobbes no país não se parece com o estado. Assemelha-se muito mais aos grupos de devoradores contra os quais deveria haver proteção.



O EU NÃO MANDA NA SUA CASA

01:01 PM, 7/2/2015 .. 0 comentários .. Link

 

O OUTRO

Como decifrar pictogramas de há dez mil anos
se nem sei decifrar
minha escrita interior?

Interrogo signos dúbios
e suas variações calidoscópicas
a cada segundo de observação.

A verdade essencial
é o desconhecido que me habita
e a cada amanhecer me dá um soco.

Por ele sou também observado
com ironia, desprezo, incompreensão.
E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,
unidos, impossibilitados de desligamento,
acomodados, adversos,
roídos de infernal curiosidade.

  Carlos Drummond de Andrade

O desconhecido que habita o falante, é o Outro do qual está alienado por uma separação irreversível. Sua presença se faz anunciar nos atos falhos, nos sonhos, nos sintomas, nos tropeços da fala, nas ações cuja intenção consciente não era a verdadeira, e, sim, aquela que não se atinou. Isso é propriamente a sexualidade em Freud. Essa divisão.

O inconsciente que aí surge é o autor dos dizeres, da criação autêntica do novo, das formações sintomáticas,  das repetições que a cada vez criam diferenças que transformam o viver.

Drummond o chama de Estranho. Suas ações dizem respeito ao Desejo como metáfora da falta. As ações do Desejo são verificáveis na história do sujeito, iso é, nas decisões, nos fracassos, nas escolhas, nos tropeços, nos embates, nos dramas e nos sofrimentos. Mesmo acontecendo nas brechas das manifestações  conscientes, suas intervenções podem ser deduzidas no conjunto dos momentos em que o sujeito determinou condutas, impondo sua lógica, apesar da consciência dar uma outra explicação.  Por exemplo, um rapaz  justifica seu interesse por certa moça dizendo que a achou bonita e muito atraente, quando na verdade ele não tem a menor de como isso aconteceu.

Enfim, o "Eu não é dono da sua própria casa",  nos informa Freud. É bom refletir sobre a questão do mando nessa casa. Será o Estranho do Drumond?



RELAÇÕES DURADOURAS

03:24 PM, 5/2/2015 .. 0 comentários .. Link

     O amor romântico, só para continuar no tema dos artigos anteriores, coloca as suas condições de trocas afetivas como responsáveis pela durabilidade das relações. É como se o critério duração fosse o seu indicador de relações “verdadeiras”.  Isso é um enorme equívoco porque o amor romântico nunca foi exemplo de garantia de relações, nem verdadeiras, nem duradouras. Simplesmente, esse tipo de amor nunca produziu isso, de fato.  As relações duradouras estão mais no campo da amizade do que do romance. O amor fraterno produz a meia distância necessária para que o par possa ter suficiente liberdade, individualidade e autodeterminação para a construção de símbolos que teçam e reteçam, a cada dia, a duração. Sim, a duração é produzida diariamente, como se fora um arranjo arquitetônico em aberto e que se fortalece a cada passo.

    A vida de todos e de cada um tem, diariamente, está exposta a inúmeras possibilidades de gozo. Depende muito do quanto as pessoas se expõem ao prazer ou, à dor. Quanto maior a exposição, maiores as possibilidades. Nesse contexto acontece um segundo equívoco: crê-se que num certo momento os sujeitos terão que fazer escolhas. Quer dizer, dentre as muitas possibilidades, tem-se que escolher pessoas e situações nas quais o gozo continuará valendo. Isso é engano porque ninguém tem condições subjetivas para fazer escolhas desse tipo. A teia do gozo é enorme e não depende de escolhas para existir. Ocorre que as pessoas vão se interessando mais ou, menos por certas situações e pessoas. Não diz respeito a escolhas, mas a interesses. Quanto maior, mais disposição para o desenvolvimento de laços mais criativos, mais intensos e mais permanentes. Ninguém escolhe interessar-se. Simplesmente acontece.

     Portanto, durabilidade vem de duas fontes: do amor fraterno e do interesse. Mesmo que haja paixões, estas não decidirão, de fato, o futuro do casal em termos de durabilidade do laço conjugal.

    Então, o futuro que conta é muito mais bergsoniano do que se pensa: o presente estendido até a iminência do futuro, garantindo a sensação de permanência e a construção de símbolos que a constituam.

 



O AMOR ROMANTICO

07:13 PM, 3/2/2015 .. 0 comentários .. Link

 

Esse ideal amoroso começou no século XII, mas só passou a ser uma possibilidade no casamento a partir do século XIX. Antes, os casamentos se davam por interesses financeiros. Como fenômeno de massa começou a partir de 1940, quando todos passaram a desejar casar por amor. É um tipo de amor que só existe no Ocidente.
Mas o amor romântico é uma mentira. Mente sobre as mulheres, sobre os homens e sobre o próprio amor. É uma mentira contada há tantos séculos que as pessoas querem vivê-la de qualquer jeito. Mas, na realidade, amam é o fato de estar amando, se apaixonam pela paixão. Sem perceber, idealizam o outro e projetam nele tudo o que desejam. No fim das contas, a relação não é com a pessoa real, que está do lado, e sim com a que se inventa de acordo com as próprias necessidades.
Por isso mesmo esse tipo de amor não resiste à convivência diária do casamento. Nela, a excessiva intimidade torna obrigatório enxergar o parceiro como é realmente e a idealização não tem mais como se sustentar. O desencanto é inevitável trazendo além do tédio, sofrimento e a sensação de ter sido enganado.
O amor romântico nos é imposto, desde muito cedo, como única forma de amor. Apresenta atitudes e ideais próprios. Contém a ideia de que duas pessoas se transformam numa só, havendo complementação total e nada lhes faltando. Entre outras regras, prega: que o verdadeiro amor é para sempre, que não é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, que quem ama não sente desejo sexual por mais ninguém, que o amado é a única fonte de interesse do outro, que um terá todas as suas necessidades atendidas pelo outro, etc...
Não é à-toa que, tanto nos contos de fadas como nas novelas, o herói e a heroína só podem ficar juntos no último capítulo (exaustos depois de superar tantos obstáculos), que termina com “E foram felizes para sempre”. São cristalizados para sempre naquele estado apaixonado porque é a única maneira de se garantir que assim ficarão para sempre.
É claro que é possível viver um tipo de amor bem diferente, sem projeções e idealizações, longe da camuflagem do mito do amor romântico. Para isso precisamos, primeiro, ter coragem de abrir mão das nossas antigas expectativas amorosas e depois então, torcer para que mais pessoas façam o mesmo. Descobrindo outras formas de amar podemos experimentar sensações até agora desconhecidas, mas nem por isso menos excitantes.

Artigo de Regina Navarro Lins, baseado em texto do livro A Cama na Varanda



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