Inventando a vida

SOU BANDIDA, SOU SOLTA NA VIDA.

07:27 AM, 11/5/2013 .. 0 comentários .. Link

 Foi desse jeito,  completamente irreverente,  que O Chico Buarque expressou a ideia de uma  mulher  feita sob medida para um homem. E acrescenta –  sou perfeita porque, igualzinho à você, eu não presto.  De fato, a ideia do Chico é muito complicada. Contudo, também muito interessante e de muito sentido no mundo pop. Haja vista o bordão, recentemente criado e  lembrado  por pessoas de todas as classes sociais que é aquele da Zorra Total, TV Globo, pra variar, quando a personagem Valéria, transformista, porque mandou pastar o pau do Valdemar, repete para a amiga de forma entusiasmada – Ah! Como eu sou bandida!  A mulher que o Chico concebe, além de bandida,  também é traiçoeira e vulgar, sem nome e sem lar, é filha da rua e cria da costela do homem que a cobiça. O que isso diz, afinal? Posso arriscar que a música do Chico é uma declaração de amor à rua. Rua aonde a moral burguesa não chega, aonde ninguém é de ninguém, aonde o palavrão vale muito,  aonde a religiosidade e seu ideal de pureza passam longe, aonde, enfim, quem quer  ficar solto na vida, tem grandes chances de conseguir. A magia da rua acontece na exata medida em que não é nada e é tudo: não é o lar, não é a família, não é a coisa moral, não  é o politicamente correto, não é coisa de marido nem de esposa, não é coisa da escola nem da igreja, não é, principalmente, restrição à porra nenhuma que proíbe ou limita.  A rua é o mundo, a liberdade louca, a coisa doida, o espaço da cobiça desbragada, do sexo quase explícito, ainda que pornográfico. O problema é que quem não é de nada, não topa nada e gosta de blefar que é fodão, sem amarras e sem juízo, também quer estar na rua. Ainda que, apenas, simbolicamente.  O Vinícius de Morais, que gostava muito da rua, mandava todos esses pra tonga da mironga do cabuletê. A rua, por ser um  espaço plural, também é um fenômeno de comunicação, de inclusão, de integração.  Não existe para quem quer um momento de exceção, de libertação, de se colocar na esbórnia pra depois sair. Existe, antes, como oficina para a construção de mundos possíveis, de estados utópicos de alma, de viver fora da nova ordem mundial, como diz o Caetano.  Não é de gente que num momento de tédio procura o diverso, a diversão do diverso, a contramão do que é  universo para, depois de distrair-se, voltar ao normal.  Grandes e tremendas coisas foram feitas na rua: a revolução francesa,  os diálogos irônicos de Sócrates, os atos de Cristo, conforme ele mesmo declarou a Pilatos, as caminhadas políticas de Gandhi, os discursos de Luther King e muito mais. Realmente o Chico tem razão quando afirma que a mulher perfeita, feita sob medida está na rua, como ser político, filosófico, com a seríssima missão de desconstruir, de modo bandido, o mundo de quem não leva a vida e a rua à  sério.


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