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A VIDA É UMA VIAGEM - ALEMANHA E REPÚBLICA TCHECA

Postado em 19/12/2010 em 07:02 PM - 0 Comentários - Link

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ROSA MARIA

Postado em 19/12/2010 em 04:22 PM - 0 Comentários - Link

Rosa Maria

 

Salvador Celson


 

Na primeira vez que se viram, ela estava ensaiando uma peça infantil no teatro da escola. Ela representava de uma forma tão graciosa, que ele quase se apaixonou, e, tão embevecido ficou, que nem sequer percebeu, ou acreditou que alguns daqueles sorrisos pudessem estar sendo dirigidos para ele.

Depois se viram num baile de carnaval. Ela chegou com o mesmo sorriso de antes e ele ficou com aquela sensação de desejo e esperança: quem sabe um dia...

Durante muito tempo, entre sorrisos e olhares provocantes, e desejos mal disfarçados eles sonharam se encontrar um dia, no lugar, no tempo e no espaço certo.

E aconteceu.

Ele ainda jura que foi a força do pensamento. Ela confessou que tinha uma tênue esperança de que um dia pudesse acontecer.

Ele tentava atravessar a rua para alcançar uma cabine telefônica. Ela surgiu não se sabe de onde. O mesmo sorriso, quase sedutor. Ela morava bem pertinho dali, e ofereceu um suco de goiaba. Ele esqueceu do telefonema, de quaisquer compromissos. Era sábado.

Ela contou de uma festa na noite anterior, seu cabelo ainda cheirava a fumaça. Eles falaram sobre o livro de Gabeira e as musicas dos antigos festivais. E não se sabe exatamente em que momento, eles perderam o controle daquele delicioso jogo de sedução.

Ela lhe mandava bilhetes, convites com cartões coloridos cheios de frases formadas por frases de revistas cuidadosamente recortadas, e todas as vezes que se despediam, perguntava: que dia de vejo de novo? Parecia temer que se perdessem, ou que o acaso os separasse da mesma forma que os juntou.

Ele respondia vagamente: a gente se vê por aí.

E juntos se viam e vagavam pelos cantos da cidade. Bares, cinema, teatro.

Certa feita estavam numa sala de projeção, e começaram a ouvir uma música que parecia não ter mais fim. Era Bob Dylan cantando “Sad eyed Lady of the Lowlands”.

No escuro da sala, de olhos semi cerrados ele lhe tocou os seios, quase com força, quase com cuidado. De olhos fechados, ela mordeu suavemente os lábios, quase protestando, quase adorando. E assim viajaram naquela canção quase interminável que de tão pungente, quase cortava, quase sangrava. Ele não entendia nada daquela letra, mas parecia ser exatamente o que sentia e que gostaria de falar.

E então quando acordaram, estavam de volta pra casa, de mãos dadas, andando pelas ruas daquela imensa cidade, ela lembrou os versos de Drummond que falam de um presente tão grande, e de que não nos afastemos. Ele lembrou Ferreira Gullar dizendo que “uma parte de mim é multidão, e a outra parte estranheza e solidão”.

Um novo ano novo se aproximava, e ela o convidou para viajarem juntos para uma praia bem distante, para lançarem ao mar um monte de desilusões, e puxarem uma rede cheia de esperança, num Porto mais Seguro

Ele falou que ainda não estava pronto, que ainda não estava inteiro, mas que precisava dela, dependia do seu colo amigo para recomeçar.

Então ela percebeu com tristeza e desapontamento que havia uma sombra entre eles, que não estavam sós, e aquilo lhe magoou profundamente.

Ele não escondeu e confessou que precisava de tempo para construir uma nova estória, mas que se sentia como um pai que não pode abandonar um filho antes que ele consiga andar com suas próprias pernas. Mas que por outro lado ele também

queria estar ao lado dela para renascer como uma criança que necessita de colo, de um peito para alimentar seus sonhos de uma nova vida.

Ela não respondeu, apenas apertou os lábios, fechou os olhos rapidamente e deixou escapar duas lágrimas ao longo de suas faces. Aquela imagem doeu muito mais nele do que nela.

A magia acabou e o encanto se perdeu, as mãos foram se soltando, e junto com aquelas lágrimas, ambos sentiram que algo estava se perdendo irremediavelmente de uma forma tão melancólica como jamais haviam sentido antes.

Então ele percebeu que não havia mais nenhuma palavra que pudesse ser dita, porque a verdade do que havia entre eles e em torno deles, que ele julgava necessária para construírem uma estória juntos, fora o capítulo final de um amor natimorto.

Assim, continuaram seguindo silenciosamente, paralelamente, sem esperanças nem promessas para o infinito, olhando para frente, enquanto a suave brisa noturna enxugava carinhosamente as lágrimas dela, e levava para nunca mais o cheiro de alfazema que ela deixara nas mãos dele.

 


OUTRO ROMANCE NO DESERTO

Postado em 19/12/2010 em 04:18 PM - 0 Comentários - Link

OUTRO ROMANCE NO DESERTO

 

 

 

Ela tinha todas as razões do mundo para não ir àquele encontro, para não se expor, ali, numa estação onde podia ser vista por conhecidos e estranhos, que pareciam ler em seus olhos e gestos um misto de culpa e determinação.

Ela sabia que talvez não deveria, mas certamente ela queria muito, e tinha todas as emoções do mundo para caminhar naquela direção. Por que o desejo vence o medo com a mesma naturalidade que o rio enfrenta o mar na esperança de se tornarem únicos num turbilhão onde não fosse mais possível distinguir o que era sonho e que era real.

Durante muito tempo se perguntara mil vezes, se era possível uma estória acabar de uma forma tão reticente, como laços frágeis que se soltam suave e naturalmente ao longo de uma caminhada que se supunha longa e duradoura.

Mas ela estava lá, escondendo se através de óculos escuros, como se fosse possível ignorar todas as coisas e pessoas que estavam à sua volta, e, quando ele surgiu do nada abrindo a porta sem pronunciar nenhuma palavra, apenas um breve sorriso, e nesse momento tudo pareceu um imenso deserto: as ruas, as pessoas, as árvores, os carros, nada mais era real.

Como se não soubesse e não quisesse, ela perguntou quase trêmula:

- Para onde vamos? Para onde você vai me levar.

- Eu vou te levar para o lugar que você quiser ir.

- O que você vai fazer comigo?

- Eu vou fazer com você tudo que você quiser que eu faça com você.

Ela se sentiu frágil diante daquele domínio, refém daquela confiança, uma presa diante daquela posse, e se atirou de olhos fechados naquele abismo, amando loucamente tudo aquilo.

Uma lágrima feliz escorria em sua face quando a canção começou a tocar no rádio:

 

.....”eu tenho a boca que arde como o sol, o rosto e a cabeça quente......”*

 

A boca, seca, frenética e sofregamente bebia a saudade e os desejos guardados todos aqueles anos, a cabeça, nas nuvens, e o corpo em chamas num imenso deserto, onde milhões de apitos tentavam em vão quebrar o silencio e a magia.

 

.....”agora ninguém vai pegar a gente......”*

 

Longe de tudo, escondidos de todos, inclusive de si mesmos, completamente esquecidos do que eram hoje, e completamente cheios, transbordantes do que não tinham sido ontem.

- Sinto falta do teu cheiro. Jamais esqueci teu cheiro.

- Sinto saudade da tua pele, do contato do teu corpo, jamais esqueci o toque da tua pele, dos teus pelos, da tua carne.

Lentamente, docemente, serenamente e naturalmente tudo se encaixava, inclusive a canção.

 

......”me abraça minha vida, me leva em teu cavalo, e logo no paraíso chegaremos.....”*

 

E eram braços e abraços enredados, apertados que, soltas as rédeas, se deixavam conduzir, galopando suavemente pelo meio do imenso do deserto, do imenso abismo que os separava.

O paraíso era a travessia, era o suave galopar, era o mundo que se resumia à intensidade daquele momento, eram olhos fechados que se recusavam a abandonar aquele sonho.

 

......”não chore não querida, esse deserto finda”*

 

Ela chorava por suas dores, por seu amor, pelo deserto que atravessava sem querer voltar, sem querer achar a saída.

Ela chorava em paz.

Agora, todas as vezes que ela se recorda de tal viagem, sorri, saboreando as imagens e o som do mais belo sonho de sua vida.

Ela disse e convenceu a si mesma de que é possível abrir uma lacuna, um grande parêntesis no presente onde o futuro não tem a menor importância diante do passado, do que foi vivido, e a canção cúmplice, indicava o caminho percorrido e a percorrer, por mais que tentasse disfarçar;

 

Nada, nada disso aconteceu, mas eu me lembrarei todos os dias da minha vida.

Salvador Celson

JUN/2008


*Romance in Durango de Bob Dylan, versão de Fausto Nilo

 

 


 


O DESPERTAR DA SOLIDÃO

Postado em 19/12/2010 em 04:17 PM - 0 Comentários - Link

                                     O DESPERTAR DA SOLIDÃO

 

 

O despertar da solidão

É um rio que não sabe onde desaguar.

É caminhar à noite pela praia

Sem luar, sem estrelas, sem sombras....

 

O despertar da solidão

É um coração adormecido.

Um corpo que brinca na água

Ao som do mar e do vento.

 

É sempre uma noite escura....

Uma tarde caindo....

Qualquer som longínquo

Ou apenas o sabor do silêncio.

 

O despertar da solidão

É rimar amor e dor

Medo e segredo

Saudade e maldade.

 

É saudade e silêncio

Noite e escuridão.

Praia deserta, pegadas na areia.

Cabelos molhados e lágrimas perdidas.

 

O despertar da solidão

É a água batendo nas pedras

E o silêncio respondendo à dor.

Ou um homem que não sabe mais chorar.

 

 

1980


IF YOU SEE HER SAY HELLO

Postado em 19/12/2010 em 04:11 PM - 0 Comentários - Link

                                    IF YOU SEE HER, SAY HELLO*

 

 

Salvador Celson

 

     Por mais que se esforçasse, ele não conseguia se lembrar de como tudo começou. Mas foram muitas brincadeiras que foram se tornando sérias, e muitas supostas mentiras que mal disfarçavam a verdade. Eles começaram como bons amigos, e ao longo da caminhada companheiros, para mais adiante se revelarem amantes. De certa forma, eram pobres amantes também.

Ele aparentava serenidade, sonhava silenciosamente, e tinha a dolorosa consciência da fragilidade das coisas, do tempo, e assim convivia pacificamente com a angústia de ser vivo, caminhando em busca da vida no caminho da morte.

Ela carregava consigo, uma indignação incontida. Parecia que o mundo jamais lhe oferecera o que ela precisava o que ela merecia.

E assim durante muito tempo caminharam juntos, tropeçando aqui e ali, mas sempre seguindo. Caminhos paralelos é verdade, mas não tinham a ilusão de um encontro no infinito. Tudo na vida deles parecia ser algo distante, quase inatingível, quase inacessível.

Para ele, ela era a companheira para que se cumprisse um ciclo em suas vidas. Aquilo estava escrito, e eles tinham que cumprir aquele tempo juntos. Ele tinha a certeza de um amor frágil, daqueles que já nascem condenados a morrer precocemente.

Para ela, ele não era um homem especial, mas bem diferente, quase esquisito, e o que mais a atraiu, foi aquele jeito dele estranho de ser. Ele não tinha nada de príncipe encantado, mas quem sabe o tempo não o moldaria?

Nas crises, cada um reagia a seu modo. Ele parecia não sofrer diante das dificuldades, demonstrava aceitar passivamente as adversidades, mas silenciosamente calculava seus passos e traçava seu destino. Chegava ao cúmulo de extrair da dor o máximo de ironia e humor possível.

Ela era pura emoção, quase explosão, sensibilidade à flor da pele, e no meio de suas tempestades, havia momentos em que ele se sentia pequeno, impotente, quase subestimado.

Aquelas reações, de vez em quando o magoavam, feriam até, mas ele dizia que fora de raspão. Assimilava os golpes, e achava graça no seu jeito escorpiano de ser: autêntico, vibrante, direto, ultra sensível, que às vezes escondia uma criança indefesa, dando seus primeiros passos num mundo desconhecido.

Ele também se achava um sagitariano legítimo, daqueles que apontam a seta para um lugar que somente eles vêem, somente eles acreditam que existe.

Apesar disso, havia momentos em que ele se cansava e tinha um desejo muito forte de dizer adeus. Mas sempre resistiu à tal idéia, até porque achava que seria muita crueldade da sua parte não dar uma oportunidade para que aquele amor pudesse nascer. Era uma gestação dolorosa, mas negou-se a abortar, preferindo o risco de parir e amamentar aquela esperança.

Houve um dia, uma manhã esplendorosa diante de um mar azul, em que frente a frente conversaram como se fossem os melhores amigos do mundo. Naquela imagem, não ficou nenhum sinal, nenhum indício de passado ou presente incerto ou dolorido, e nem o temor de um futuro sombrio ou assustador. Faltou lhes naquele dia apenas perceber o conforto de serem bons amigos, e avaliar o risco de serem péssimos amantes.

Um dia, depois de alguns temporais e de alguns silêncios reveladores, ele decidiu ir embora. Constatou amargamente que não amava nem se sentia amado o bastante, ou pior, o amor que um dia sonhara não existia. Mesmo sem ter coragem de dizer adeus, ele resolveu partir e assim o fez, sem olhar para trás, para não ter que chorar.

Assim ele começou outra história, escreveu outro caminho, apagando todas as suas pegadas, desaparecendo completamente sem deixar um sinal, nem pistas, nem vestígios. Tornou-se invisível, uma lacuna, uma interrogação, enquanto ela, durante algum tempo, em meio ao doloroso abandono em que se enredou se perguntava e duvidava que tudo aquilo pudesse ter acontecido algum dia.

Ainda hoje, no meio do silencio, da ausência, do vazio, ele guarda consigo uma irremediável certeza: o mal que um dia se fez, foi culpa de todo o bem que se quis, e este bem querer tão forte, foi tão frágil, que não teve a força necessária para reparar a dor que criou.

 

 

 

* Bob Dylan


NO DIA EM QUE EU FUI EMBORA

Postado em 19/12/2010 em 04:08 PM - 0 Comentários - Link

NO DIA EM QUE EU FUI EMBORA

 

 

Salvador Celson

 

 

Durante toda a manhã, não me lembro de ter pronunciado qualquer palavra. Havia sobre mim, dentro de mim e em volta de mim, um silêncio avassalador que fazia com que eu visse em minha sombra imagens fantasmagóricas.

Eu sempre tive a mais absoluta certeza de que um dia partiria, e confesso que me causou assombro a naturalidade com que me vi arrumando a bagagem, limpando as gavetas, apagando as lembranças e resistindo à tentação de deixar qualquer sinal, qualquer pista, ou uma palavra sequer.

Eu estava tão convicta da minha decisão, que nenhuma das imagens e lembranças que a todo o instante passavam e passeavam borboleteando por todos os cantos da casa vazia, poderia ameaçar meus planos.

A melhor lembrança de todas será sempre a primeira. O primeiro encontro, o primeiro riso, um leve roçar de lábios, o quase primeiro beijo. Ele conhecia a arte de me fazer sorrir, e sabia trafegar no milimétrico limite entre respeitar e quebrar o meu silêncio. Eu amava o seu jeito amigo de ser, e o que me fazia mais feliz era saber que ele compreendia os momentos em que me aninhava em seus braços querendo ser só uma menina.

Talvez ele nunca tenha percebido que por trás dos meus gestos calmos, e da minha serenidade, havia dentro de mim uma tempestade, ventos sem direção. Alguém que sentia falta de algo ou de algum lugar, mas que ainda não sabia se encontrar. Assim, convivia com aquele redemoinho viajando do nunca para lugar nenhum.

Ah, mas como era bom ser amada, como era reconfortante sentir seus abraços, e como doíam aqueles sussurros que quanto mais tentavam esconder, mais ainda revelavam e confessavam a intensidade daquele amor: és feliz? Estás feliz? Eu queria apenas que ele percebesse nos meus abraços e na minha entrega, que aquele era o meu jeito de amar. Eu queria ter tido coragem para confessar: eu te quero bem, mesmo que não seja feliz amanhã, terei sido agora.

Para ser sincera não me achei no direito de escrever nenhum bilhete, nenhuma palavra de carinho, nem votos de felicidades. Seria maldoso ou até piegas, espalhar um rastro de perfume pela casa, e não seria original deixar marcas de batom no espelho. Por isso, enquanto escovava os cabelos quase mecanicamente, não pude deixar de sorrir comigo mesma com o sentimento que me ocorreu naquele momento. De repente me senti como uma mãe que preparou seu filho para uma nova vida, e tem a certeza de que ele possui a força necessária para encarar uma nova realidade.

Por isso quando ele me surpreendeu chorando, e silenciosamente entendeu, tive a confortante certeza de que um homem tão bom como ele poderia ser bem mais feliz longe de mim.

Às vezes ainda me pergunto: terá sido amor? Já amei verdadeiramente alguém assim? Haverá alguém ou algum lugar? Nem ouso me aprofundar. Talvez seja daquelas pessoas que ainda não sabem se deixar o destino as conduzir é um ato de coragem ou covardia.

Mas devo confessar que tive medo. Como uma menina diante do desconhecido.

Tive medo da intensidade daquele amor. Todo aquele cuidado, todo aquele afeto, fazia com que me sentisse um pássaro, uma jóia preciosa que teria que ser guardada numa redoma, e seus olhos pareciam confessar a todo o instante: que pena que você não me quer como eu te quero.

Naquele dia, na hora ir embora, se eu pudesse escolher, preferiria que não tivesse chovido. Por que ele estava lá no meio da rua, com a roupa molhada, os cabelos assanhados, parecendo um menino, com um ramo de flores na mão. E por mais que fechasse os olhos, mais dolorosa e mais nítida ficava sua imagem.

Então, para distrair a dor, corri para o espelho para retocar a maquiagem, e quanto mais me olhava, mais o via, e enquanto eu chorava, ele sorria, de uma forma reconfortante, prometendo o óbvio, um sol esplendoroso depois da chuva, e mais a certeza de que no fundo no fundo, tudo não passou de um sonho, um dos mais belos de sua vida, e posso até jurar que ele colocou suavemente o dedo em meus lábios para que eu não pudesse pedir perdão pelo amor que perdi.

 

 


CINCO MINUTOS

Postado em 19/12/2010 em 04:00 PM - 0 Comentários - Link

CINCO MINUTOS

 

 

Salvador Celson

 

Ele não era do tipo que chamava a atenção das mulheres, mas ela era obrigada a admitir que desde a primeira vez que o vira na cidade ficara bastante impressionada.

Era mais do que normal que a chegada de um forasteiro despertasse a curiosidade das pessoas, principalmente em se tratando de uma cidade tão pequena onde quase nada acontecia.

Ela lembrava claramente o momento em que o avistara passando lentamente pela porta da escola onde estudava, exatamente no horário da saída, onde um grupo de garotas, entre elas Maria das Graças – que cá entre nós não tinha tanta graça assim – a mais atrevida – e por que não afirmar – a mais libertina de todas – fez um esforço enorme, quase patético para desviar sua atenção.

Ela se admirou e se regozijou com a indiferença com que ele reagiu ao assédio explícito.

- Bem feito “Devoradora”, quebrou a cara – Pensou com seus botões.

Algum tempo depois, quando o acaso os colocou frente a frente, percebeu também de imediato, que como dizia a canção dos “Paralamas”, por trás daqueles óculos batia um coração.

Eles estavam numa sala de espera, e a senha para o primeiro contato foi o exemplar de “Dom Casmurro” que ela tinha nas mãos. Ele disparou a falar sobre o bom gosto dela em ler Machado de Assis, e sobre o enigma de Capitu que ele deixara para a posteridade. Ele se empolgou tanto falando sobre a qualidade da literatura brasileira, que por pouco aquele momento não se transformou num monólogo.

- Desculpe – ele falou ao perceber o silêncio dela – é que desde que mudei pra cá não encontrei ninguém para dividir minha solidão literária.

- Você já leu um livro chamado “a insustentável leveza do ser”?

- Muito interessante, acho que fiquei apaixonado por Sabina.

- Gostei mais de Tomas e Tereza.

Daí em diante, os encontros já não eram mais obras do acaso. Ela estava encantada. Apesar do seu jeito um tanto quanto esquisito – para suas colegas ele era “um tipo estranho metido a intelectual” – ela se afeiçoara, e a cada dia sentia-se mais atraída pelo seu jeito diferente de ser.

É bem verdade que às vezes era cansativo ouvi-lo falar sobre música, principalmente quando ele se metia a contar as circunstâncias, ou a história que cada uma delas continha.

- Você já prestou atenção na letra de Paul Simon em “The boxer?

Não, ela não tinha atentado, mas agora sabia que não era muito diferente dos imigrantes nordestinos que fracassavam em São Paulo.

Ele se emocionava ao ouvir Paul Mc Cartney cantando “Yesterday”, e chegava a ponto de afirmar que Paul devia estar cantando com uma saudade enorme dos Beatles.

Ela também se emocionava ao ouvir a canção, mas não se sentia tão intima de Paul, para presumir tais sentimentos.

Certa feita ele lhe apresentou um LP repleto de canções em espanhol, e ela ficou impressionada com uma das últimas faixas, onde havia os acordes tristes de uma guitarra: “Te recuerdo Amanda”.

Foi a deixa para um discurso.

- Esta é Joan Baez, a mulher da minha vida (mais intimidade), apesar do nome, ela é americana filha de pai mexicano com mãe escocesa. Esteve aqui no Brasil há alguns anos atrás, mas os militares a proibiram de cantar. Um absurdo, um crime contra a cultura que jamais será perdoado. Ela é uma revolucionária, foi contra a guerra do Vietnã, recusou se a pagar impostos nos EUA, e sempre se dedicou a causas humanitárias. E esta canção também é uma das minhas favoritas. O autor – Victor Jara - tem uma história muito triste, e muito provavelmente foi torturado e morto pela ditadura chilena. Você consegue entender a beleza dessa história nessa canção”?

Ela ainda não entendia toda a letra em espanhol – principalmente quando o refrão falava da eternidade da vida em cinco minutos. Mas ela sentia, e isso era que importava. Ela sentia aquela tristeza, e percebia a beleza daquela e de outras canções, mesmo que a letra não fosse compreensível.

Ela sentia também um afeto cada vez maior que ainda não ousava admitir que pudesse ser amor. Mas aquilo lhe doía profundamente, porque a cada encontro, a cada conversa, ele falava de tudo, sabia de tudo, entendia de tudo, mas não enxergava os olhos que brilhavam à sua frente.

Pouco tempo antes de ele ir embora eles tiveram a oportunidade de assistir a um projeto de música popular itinerante que percorria várias cidades do país com shows em praças públicas. Era uma oportunidade rara de ver de perto alguns nomes conhecidos, e outros quase já esquecidos do público.

Ela estava um pouco triste, mas resignada, afinal eles jamais alimentaram qualquer tipo de ilusão.

Ele parecia extasiado diante dos artistas, e confessou que era emocionante ouvir alguém cantar no meio do povo. Naturalmente ele a abraçava, e se balançavam ao som das canções. Fazia muito frio naquela época do ano, e ele sussurrou no ouvido dela plagiando T S Eliot com toda a certeza da impunidade: Agosto é que é o mais cruel dos meses.

O vento estava quase gelado, orvalhava, ela estava trêmula e ele percebeu como os cabelos dela estavam úmidos, e ao tocá-la sentiu também sua tristeza. Uma música lenta o despertou. Foi quando a puxou suavemente, e ela naturalmente aninhou-se em seu peito, como se estivesse esperando por aquilo a vida inteira. Ele viu nos olhos dela o mesmo brilho que Tomas vira nos olhos de Tereza, e aquilo o enterneceu de tal modo, que a abraçou com o carinho e o cuidado que certamente todo amante guardaria para sua amada.

Ela apenas fechou os olhos, inebriada, não pensava em nada, não ouvia nada, sentia apenas o corpo balançar suavemente numa dança lenta, deixando-se carregar, flutuar, e não havia mais conforto no mundo do que no calor daquele abraço, e aquela entrega dispensava qualquer palavra, qualquer sinal.

E foi assim, de olhos fechados, sem querer acordar, com um leve sorriso nos lábios, o peito batendo forte, o frio na espinha, que ela finalmente foi capaz de entender porque há momentos em que “a vida é eterna em cinco minutos”.

 

 

 


SE-PA-RA-ÇÃO

Postado em 19/12/2010 em 03:56 PM - 0 Comentários - Link

SE-PA-RA-ÇÃO

 

Salvador Celson

 

O aviso prévio ficou no ar por mais de um mês.

A separação era um fato consumado

Aprovada por decurso de prazo.

Uma espécie de morte natural.

Agora será menos cruel dizer que estamos mais amigos

E que o amor não morre.

O amor se perde, se esquece, se deita e adormece.

Será mais fácil dizer que foi melhor assim,

E que recomeçar é sempre uma nova e excitante emoção.

Recomeçar tem um gosto diferente que inebria, ilude a gente.

Será menos doloroso não assistir

O compacto dos melhores momentos.

Não rever as fotografias daquela viagem,

Arquivar o retratinho 3 x 4,

E mudar a foto da cabeceira da cama.

Será mais prudente (e menos econômico),

Renovar a discoteca, o guarda-roupa, o corte de cabelo,

E toda vez que se vê sozinho

Esquecer por que mudou.

Por mais perigoso que possa ser lembrar disso.

Será melhor não pensar nos motivos,

Não tentar justificar, nem querer voltar atrás.

É melhor enterrar o “só mais uma vez” o “novamente”,

E principalmente o “quem sabe um dia”.

Vai ser bom escolher um novo perfume,

Um outro barzinho, e se possível trocar de carro.

Vai ser ótimo se sentir mesmo que momentaneamente,

Outra pessoa: leve, solta,

Sem a imensa responsabilidade de uma relação a dois.

Que tal fazer ginástica, musculação, defesa pessoal,

Canto, dança, línguas, comida natural, ou meditação transcendental?

Já pensou em assumir um papel social

Diante do quadro de crise nacional?

Vá devagar, essas coisas podem lhe confundir.

E você pode perder o rumo.

Bem, o importante é que tudo isso,

(pelo menos no início)

Pode ser muito interessante, e trará a certeza

De que uma separação não é o fim do mundo.

Dê de ombros e diga que tudo na vida é o costume, a prática.

Mas é claro que há os inevitáveis sentimentos:

Pena, saudade, pitadinhas de remorso, riscos de ressentimento,

Respingos de mágoas, lampejos de beleza, centelhas de alegria,

Passando vivamente: o passado....

Pense friamente:

Há um certo alívio e o doce sabor da liberdade de volta

Junto com o prazer de fitar libidinosamente os brotinhos na praia

Sem o menor constrangimento; ou melhor:

Com toda a safadeza que se tem direito.

Mas tenha cuidado;

De repente seu ex-amor é flagrado lado a lado com outro alguém.

Pode ser tudo, pode ser nada.

Mas haverá a sensação de invasão de propriedade,

De violação de posse, e o ciúme vai doer,

Como se arrancassem um pedaço da sua carne.

Então você amargará um odioso e inútil sofrimento,

Junto com a louca ironia de ter sido feliz,

E mais o despeito de estar só, à margem.

Nesse caso, balance a cabeça, como quem diz: mau gosto.

Finja indiferença, disfarce a dor e diga que agora,

Você tem certeza de que realizou uma feliz separação.

Provavelmente nada disso vai adiantar muito.

Então, será melhor simplificar as coisas:

Tome um porre monumental ao som de Maysa,

Dolores Duran, Lupiscinio, Roberto Carlos e Altemar Dutra.

Chegue em casa ao romper do dia

E diga que é maravilhoso não ter ninguém para encher o saco.

(evite o espelho para não chorar e por tudo a perder)

Mas se isso acontecer,

Diga que a vida não tem graça sem uma paixão arrebatadora,

E que você se sente feliz por ter vivido isso intensamente.

Agora cá entre nós;

Será menos duro e mais sábio,

Olhar para a vida com o desejo louco e febril

De uma nova paixão, que nos devolva o eterno sonho de um imenso amor.

Que possa redimir todas as dores, traumas, loucuras e desventuras,

De tantos amores perdidos.

E que nos traga a sensação/ilusão de resumir numa só pessoa

Toda a ternura, doçura e gostosura,

Dos nossos mais loucos, felizes,

Inesquecíveis, indescritíveis e eternos amores.

 

1987

 

 

 

 

 

 

 

 


OLHARES

Postado em 19/12/2010 em 03:51 PM - 0 Comentários - Link

 

 

OLHARES

 

Se alguém lhe perguntasse como se sentia, como se via, ou como se percebia naquela idade, não saberia como responder. A rotina, o trabalho e a solidão daqueles últimos anos fizeram com que a vaidade e os cuidados com a beleza ficassem em segundo plano.

Mas não era preciso observar muito para perceber que aos trinta e poucos anos ainda era uma mulher muito atraente: o corpo ainda em forma,  certa elegância no andar, mas principalmente o olhar de menina carente, quase triste que despertava uma certa ternura, quase inexplicável.

Sentia-se resignada com a solidão, acomodada na rotina de uma vida simples sem grandes preocupações ou emoções. É bem verdade que intimamente nutria esperanças de uma nova paixão, porém nunca dera nenhum passo nessa direção.

Foi num desses dias que se arrastam lentamente como se a tarde jamais tivesse fim,  que se deu conta de um olhar diferente, vindo de alguém que fazia parte do mesmo ambiente em que ela trabalhava.

Ela o via como uma pessoa introspectiva, encouraçada, de pouca conversa, com uma polidez fria, um ar distante, cumprimentos e gestos comedidos, por isso, aquele olhar a surpreendeu, incomodou, deixou-a desconfortável, e mal pode disfarçar o quanto a perturbou.

Não tinha ainda tido tempo de se recompor quando o viu se aproximar, e em meio ao rubor e a confusão em que se viu envolvida, mal conseguiu balbuciar algumas palavras de agradecimento a respeito dos comentários que ele fez, e que ela conseguiu reter alguns fragmentos.

Mais tarde, no silencio e na solidão de sua noite, aquele olhar continuava ainda cravado em sua retina. Deve ter sido uma fração de segundos, mas não havia dúvida do seu significado: era um olhar faminto, sedento, quase animal, de uma fera que espreita sua presa, à espera de qualquer descuido para o golpe fatal. E sob o impacto daquele olhar, ela se sentiu uma presa acuada, principalmente pelas palavras aparentemente frias que se seguiram: “ se precisar de alguma coisa...”estou às ordens, conte comigo...”

Durante muito tempo rolou na cama como se aquele homem estivesse ali como uma câmera no teto do quarto, e o pior era ter que admitir para si mesma que apesar de todo o desconforto e constrangimento por causa da daquele olhar que a desnudou, a esquadrinhou, quase a traspassando  como se fosse um raio X,  sentira centelhas, fagulhas de prazer ao se perceber desejada, mesmo que daquela forma quase violenta.

Vencida pelo cansaço, pelo calor e receosa de como enfrentar aquela situação novamente, adormeceu, na esperança vã de se livrar daquele olhar.

Foi então que sonhou com tudo aquilo que temia ou desejava. De repente, se sentia esmagada por braços de um homem sem rosto e sem nome, e quando julgava gritar apenas gemia, porque seus abraços não machucavam, ao contrário confortavam. Sentiu lábios em sua boca, em sua nuca, seu pescoço e uma barba que não arranhava, mas arrepiava, e quanto mais tentava gritar mais gemia. No calor da noite, sentiu uma mão sobre seu ventre, e quando pensava repelir tal gesto, se via guiando-a através dos labirintos de sua solidão, de suas carências. Ele tinha total domínio e poder sobre seu corpo que inexplicavelmente estava tatuado com flores, estrelas, corações e hieróglifos, que ele acariciava cada uma delas, como se decifrasse através deles seus segredos, seus medos, seus desejos mais escondidos.

Quando acordou em meio a estremecimentos, gemidos e calores sentiu uma pontada dolorosa de solidão junto com uma terrível sensação de tempo perdido, mas também como alguém que desperta com a possibilidade de ser feliz nova e inteiramente.

No dia seguinte, apesar da noite mal dormida, acordou com a certeza de que era alguém que tinha o direito de ser feliz, pois fazia tempo que não se sentia tão bonita e tão mulher.

Vestiu se cuidadosamente: uma lingerie branca contrastando com sua pele morena, um vestido florido, as belas pernas à mostra, o batom mais vermelho que o normal, um perfume diferente, e saiu para a belíssima e ensolarada manhã que a esperava, dizendo para si mesma com um suave sorriso nos lábios: que bom que você se gosta.

E lá estava ela, “vestida para matar”, com o olhar mais confiante do que nunca, observando e se divertindo com as dezenas de feras que babavam pelo caminho por onde passava.

 

 

Salvador Celson


PATRÍCIA IV

Postado em 5/12/2010 em 12:03 AM - 0 Comentários - Link

 

 

Esperei por um amor desde que a primeira estrela foi criada....

encontrei dentro de mim...........


PATRÍCIA III

Postado em 5/12/2010 em 12:01 AM - 0 Comentários - Link

 

Sei que não me amas,

mas me fazes feliz do jeito que és,

do jeito carinhoso como me olhas

e com o doce sorriso que me brindas

toda vez que estás comigo,

e a minha alegria

e a minha felicidade

também se realizam

nos fragmentos da tua.


PATRÍCIA II

Postado em 4/12/2010 em 11:58 PM - 0 Comentários - Link

Durante muito tempo acreditei que a felicidade estava nos braços de uma mulher. Ainda bem que descobri numa canção que “o amor não é algo que se busque em outro”.

A nossa felicidade é algo tão precioso que não podemos permitir essa relação de dependência, de fragilidade.

Na solidão, na dor, no abandono, precisamos redescobrir e reencontrar o amor dentro de nós.

Isso significa paz interior que se constrói quando temos a consciência de que fizemos tudo o que era preciso ser feito, principalmente perdoar, se perdoar, lutar, amar e se amar.

 


Patrícia 2010

Postado em 4/12/2010 em 11:50 PM - 0 Comentários - Link

PATRÍCIA

Confesso que fui feliz

Todas as vezes que amei ou me apaixonei, ou julguei estar amando foi muito bom.

Foi muito bom acreditar que a felicidade estava em um sorriso, um olhar ou um beijo, bem ao alcance da mão.

E mesmo quando não estava próximo, quando tudo era platônico, contemplativo, foi também muito bom.

Hoje eu me procuro em todas as canções de amor, doloridas, sofridas, despedaçadas e não me acho.

Eu canto e choro todas essas canções e todos esses amores perdidos, não porque me identifique ou me reconheça em cada frase e em cada dor.

Eu choro pelo que não vivi, tenho saudade do perfume, dos lugares e da mulher que ainda hei de amar, e talvez seja por isso que a minha vida tem sido uma viagem em busca de mim.

 


 


A vida é uma viagem - Fotos do Peru - Dez 2008

Postado em 4/12/2010 em 11:23 PM - 0 Comentários - Link

http://www.facebook.com/album.php?aid=14080&id=100001702822120&l=deb22837d0


"If you see her, say hello" too

Postado em 4/12/2010 em 07:48 PM - 0 Comentários - Link


 

 

 

IF YOU SEE HER SAY HELLO TOO

 

 

Na última vez em que se viram, ela chegou com um sorriso belíssimo, como quem esperou por aquele momento por um longo tempo e tinha a mais absoluta certeza de que aquele dia chegaria.

Ele percebeu de imediato  a sinceridade daqueles olhos felizes, e não pode evitar um sentimento misto de alívio e despeito.

Agora era ela que estava indo embora, e ao contrário dele, não havia dúvida nenhuma no caminho que escolhera.

Então, eles se falaram como amigos que de fato tinham sido, e relembraram o reencontro depois de alguns anos, quando ele não a reconheceu, e ela fez um enorme mistério sobre sua identidade, que lhe tirou o sono durante uma noite, e foi tão patético, que enquanto o carro em que ela ia se afastava, ele correu e girou para todo mundo ouvir: é assim que um grande amor começa nas novelas.

Durante meses tornaram se amigos quase inseparáveis, e diante dela, ele tinha a confiança necessária para falar de seus planos, exibir seus sonhos, mostrar seus escritos, e contar seus amores e desamores. Ela o ouvia encantada, com um sorriso quase enigmático, enternecida com aquele amigo tão melancólico, que de vez em quando a surpreendia fazendo a rir, quando ironizava suas próprias desilusões.

Quando ele disse que estava mudando de cidade em busca de um novo trabalho, ela não conseguiu esconder a tristeza, nem disfarçar o desapontamento. Aquela era uma possibilidade que ainda não tinha passado pela sua cabeça. Ele não tinha outra alternativa, e sentia se rumando para o desconhecido.

Assim, combinaram um encontro antes da partida numa festa junina numa cidade vizinha, mas acabaram se desencontrando e ele se sentiu vencido no meio da multidão. De volta para casa, com uma sensação de perda, tentou localizá-la sem êxito.  Mas naquela mesma noite, ela voltou, e telefonou convidando-o para conversarem.

Ele chegou ao encontro, o coração vibrando, escancarado, sem disfarces enquanto ela serenamente o esperava, quase triste. Sentados no chão da sala, frente a frente, ele disse que agora era a hora do jogo da verdade, e que não importava o que aconteceu nem o que aconteceria, mas havia coisas que precisavam ser ditas.

Por isso ele começou contando que nos últimos dias não havia feito outra  coisa senão pensar nela, e que sentia falta daquela amizade, daqueles papos, que não sabia o que aquilo significava, mas tudo o que queria naquele momento era estar ali diante dela, com ela, mesmo ou porque ele estava partindo e não sabia o que sobraria daquele sonho amanhã.

Ela por sua vez confessou que durante todo o tempo, estava ali, diante dele, de peito aberto, a alma desnuda, para que ele olhasse só um pouquinho em volta e percebesse nela toda a intensidade do sentimento que nutria por ele.

E naturalmente, quase violentamente, eles se abraçaram, se beijaram, se desnudaram, se possuíram, se pertenceram, se perderam, se reencontraram e rolaram pelos cantos da casa como se fossem um só  corpo, uma só alma, e evitavam abrir os olhos, para que aquele sonho não terminasse.

Enfim, eles se amaram como se fosse a primeira, a única e a última vez.

Eles se amaram como amigos, como amantes, e aquela foi a madrugada mais longa de suas vidas.

Nos meses seguintes, distantes, eles trocaram telefonemas e cartas. Ela imaginava como seria sua nova vida. Ela dizia: quero aprender a arte de viver mais com você, ser parte do teu mundo, não foge de mim, quero tua presença, quero matar essa saudade indefinida, vem ver o que ficou, eu te espero sem esperar, arruma tua casa, eu espero o tempo certo, o amadurecimento, fica bom logo.

Naquele mesmo tempo, ele continuava pensando nela, sentia sua falta, desejava-a intensamente, e sonhava encontrá-la a qualquer momento naquele novo cenário. Preocupava-se com ela, tinha medo de magoá-la com a sua insegurança, e o medo da intensidade daquele amor. De certa forma, era escrupuloso, e a lembrança daquela madrugada o alimentava.

Ela sábia e serenamente o compreendia, e na sua última mensagem falou dos meses que se passaram que se resumiam a saudades, e que já estava pronta para sua chegada.

E realmente estava. A felicidade quase saltava aos olhos, principalmente quando ela confirmou a sua certeza de que ele voltaria.

Ele voltou só para ouvi-la dizer adeus, e intimamente agradecido, confessou e admitiu para si mesmo, que devia àquela mulher, toda a beleza, todo o encanto e ternura, toda a alegria que alguém pode sentir ao viver intensamente um pequeno grande amor.


A vida é uma viagem - Fotos do Ceará

Postado em 4/12/2010 em 07:37 PM - 0 Comentários - Link

http://www.facebook.com/album.php?aid=14072&id=100001702822120&l=c81a432400

 


Todos os dias

Postado em 4/12/2010 em 06:41 PM - 0 Comentários - Link

 

TODOS OS DIAS DA MINHA VIDA

 

 

Todos os dias da minha vida, eu me lembro de você.

É como se fosse um ritual, que naturalmente, religiosamente acontece todos os dias.

É como se fosse o meu livro de cabeceira, uma inseparável companhia antes de adormecer, ou como se você fosse a imagem que vejo no espelho ao acordar, antes de sair para o trabalho, depois do banho, pois quando olho nos meus olhos, eu vejo você.

É uma saudade que definitivamente não dói mais, e posso afirmar que ela sempre chega de uma forma terna, aconchegante, que me transporta ao mundo de nossas lembranças, como se fosse uma companheira, para partilhar de meus sonhos.

Sem muito esforço eu vejo você caminhando pela rua com o olhar distante, quase angustiado, percebo teu ar cansado, como se a tua solidão fosse um fardo pesado. Ainda hoje a tua solidão me dói, e jamais compreendi a tua relutância em reparti-la.

O que ainda não sabes, é que quando mais me vejo só, mais eu te procuro, mais eu te encontro, muito mais eu revivo todos os momentos em que fomos “nós”.

Quando viestes até mim, eu não tinha ninguém, eu não tinha nada nem para lembrar ou sofrer. Quando chegastes até mim, trouxestes apenas teu raro sorriso, tímido até, e eu que não pensava nem desejava nada, nem tive tempo e nem quis me defender. Deixei me levar pela tua mão que suavemente tomou a minha, e conduziu me na tua direção, e tão somente fui te seguindo quase às cegas, obedientemente.

Lembro vagamente de breves sussurros sobre a minha solidão e atua, e quando acordei daquele torpor, somente o gosto do teu beijo denunciava aquela doce realidade.

Basta fechar os olhos por um momento, e sinto teu cheiro, lembro exatamente do jeito que você me abraçava, e tenho ainda gravado em mim o teu calor aquecendo o meu.

Pois era assim, de olhos semi cerrados, entre o sonho e a realidade que eu confiava meu corpo em tuas mãos, para que pudesses a cada dia escrever um novo capítulo da nossa história.

Tuas mãos nas minhas faces, na minha nuca, meu corpo estremecendo.

Tuas mãos nos meus seios, tua boca na minha, tua sede, meus arrepios.

Tuas mãos em minhas carnes, meu corpo em chamas, já não me pertencia mais, só flutuava, levitava até, implorando para que a mágica não terminasse ainda, mantendo os olhos fechados para que a noite não findasse como se fosse possível retardar o amanhecer.

Depois de tantas viagens, de vez em quando fico a me perguntar: por onde tens andado? Como terá sido teu dia? O que fizestes com teus sonhos? Onde tens guardado teus raros sorrisos? Encontrastes a mulher que um dia sonhastes, aquela que traria a cura da tua enigmática solidão? Ou será que ainda continuas ensimesmado como dantes?

De vez em quando ouço notícias tuas, mesmo que não procure, mesmo que não pergunte, parece me que as pessoas te vêem  em mim. Terei sido tatuada? Teu cheiro ainda está impregnado em mim? Teu autógrafo transformou se numa cicatriz. Falam de lugares e de pessoas por onde e com quem tens andado. Finjo indiferença, mas lá no fundo, sinto uma alegria indescritível, quase inexplicável.

De longe, trago comigo uma certeza inabalável: tu sempre soubeste e sempre saberás, o tanto que te quis, o bem que te desejo, e como ainda te amo e amarei, mesmo ciente de que jamais voltaremos a ser “nós” novamente.

E assim vou vivendo, acalentando nossas lembranças, sem ilusões, com a única esperança e desejo de que estejas bem onde quer que estejas.

Minha história contigo não acabou, mas também não creio que haverá um futuro para “nós”, e em nenhum dos meus sonhos alimento tal possibilidade.

A nossa história vive de suas próprias lembranças em movimentos circulares, um filme repetido incansavelmente, cujo clímax me mantém viva a cada dia, com a lembrança viva de “nós”, e a felicidade que um dia tive, que de tão intensa, ainda preserva o cheiro, o calor e o sabor do amor que vivemos.

E talvez seja por isso, que todos os dias da minha vida, eu me lembre de você.

 

 

Salvador Celson